Futebol americano, com dificuldades brasileiras

Preço alto dos equipamentos de proteção dificulta formação dos times no Brasil - Crédito: Divulgação
Preço alto dos equipamentos dificulta formação dos times no Brasil – Crédito: Divulgação
Em meio à força de vontade de praticar um novo esporte, o dinheiro é divisor de águas no futebol americano, além das dificuldades de estruturar uma equipe.

Por Paulo Luciano Mendes Inocente
Jornalismo Econômico / Manhã

O Brasil já é o terceiro país no mundo com mais fãs de futebol americano. Que o esporte vem crescendo cada vez mais já não é novidade para ninguém. Já são mais de 120 equipes de diversas categorias no país do futebol, além da própria seleção brasileira de futebol americano – o Brasil Onças. Porém, o futebol jogado com as mãos e também com os pés tem um preço e para os brasileiros. E não é nada barato.

Começar uma equipe do zero, apenas na força de vontade, é a luta de vários amantes do esporte norte-americano, essa luta se torna ainda mais difícil quando o país é o de outro futebol. Porto Alegre Warriors é um dos exemplos. A equipe formada no meio do ano na capital, enfrenta todas as dificuldades, tanto na hora de recrutar jogadores para atuar no time, quanto na parte de estruturação econômica.

São três modalidades de futebol americano praticadas no Brasil. Na principal, FullPads, a equipe possui todo o equipamento necessário, como capacete e shoulder pad (proteção de peito e ombros) igual aos usados na NFL (National Football League). A modalidade Flag, onde não há equipamentos, consiste apenas em fitas amarradas na cintura dos jogadores. Na prática, o adversário tem que arranca-las para para-los. Dessa forma, não tem o contato físico bruto como no caso dos FullPads. Além dessas, há a categoria NoPads – onde existe contato físico, porém sem o equipamento. A categoria NoPads, na maioria dos times, é um tempo de transição para o FullPads.

Jogo na categoria NoPads entre Porto Alegre Crows e Porto Alegre Gorillas - Créditos: Naiam Meneghetti
Jogo na categoria NoPads entre Porto Alegre Crows e Porto Alegre Gorillas – Créditos: Naiam Meneghetti

No estado do Rio Grande do Sul, há 8 equipes FullPads: Porto Alegre Pumpkins, Restinga RedSkulls, Bulls FA, Santa Cruz Chacais, Santa Maria Soldiers, Juventude FA, Bento Gonçalves Snakes e São Leopoldo Mustangs – todas filiadas a Federação Gaúcha de Futebol Americano (FGFA). Além desses, existem 8 times na modalidade NoPads: Porto Alegre Crows, Porto Alegre Warriors, Porto Alegre Gorillas, Canoas Jaguars, Viamão Raptors, Tapejara Drangons, Carlos Barbosa Ximangos e Pelotas Ants.

Dividindo as bolas

Mas, se você quisesse montar uma equipe e jogar na categoria com os equipamentos certos, quanto iria gastar? Se cada jogador comprar seu próprio equipamento (capacete e shoulder pad) desembolsará, no mínimo, R$ 1300,00. Em pesquisa rápida em um dos principais sites de compras de materiais de futebol americano, a KGSports, verifica-se que o capacete mais barato tem o preço de R$ 723,90, além da proteção de peito e ombro, que custa R$ 517,00.

O dinheiro no esporte é um divisor de águas e difere uma categoria da outra: aqueles sem equipamento, e os com equipamento. Normalmente, uma equipe de futebol americano tem em média 40 jogadores. Imagina gastar mais ou menos 50 mil reais apenas para comprar equipamento pro seu time? E mais: ainda tem o material de treino, fora os gastos que a equipe pode ter. A Federação Gaúcha (FGFA) não auxilia os times em questões financeiras, porém ajuda em questões burocráticas – como o CNPJ, por exemplo.

Em organizações de campeonatos e torneios no Rio Grande do Sul, apenas duas modalidades entram. “A FGFA cumpre o que estabelece a CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano), que prevê o Flag e o FullPads como modalidades permitidas em seu estatuto”, explica o presidente da FGFA, Jeferson Mendes.

Os NoPads acabam ficando jogados para a escanteio –  ou para sideline. É uma pena, pois grandes times do estado que hoje jogam com todo o equipamento começaram na categoria. “A maioria dos times que hoje jogam FullPad, começaram sem equipamentos. Como ex-atleta e dirigente, reconheço a importância desse início para o desenvolvimento do esporte até aqui”, ressalta Jeferson.

As equipes que jogam NoPad normalmente usam a categoria como uma transição até conseguirem comprar os equipamentos. Muitas vezes os times são formados por pessoas que possuem o conhecimento sobre o futebol americano, e convidam outras que não sabem nada sobre o esporte para inicia-las no assunto. E, para que se interessem, não é viável dizer que ela precisa desembolsar mais que um salário mínimo para poder jogar. Então, isso quase funciona como uma jogada de marketing.

Há quem corra atrás para que não exista a necessidade de tirar nenhum tostão do bolso para praticar a modalidade norte-americana. Porto Alegre Warriors, time NoPad da capital criado no meio do ano de 2015, procura formas para que isso aconteça – como, por exemplo, achar patrocinadores. Porém, existe problema até na própria solução: “achar” é difícil. “Vejo que falta investimento de patrocinadores, gente ou empresas que se interessem em arriscar, além de mais estudo da comissão técnica e da direção do time”, lamenta Matheus Felipe Costa, diretor dos Warriors.

Não basta ter, tem que saber…

Também existem equipes que pensam que não basta apenas se equipar: tem que ter um trabalho de planejamento, não só financeiro, mas também esportivo. A ideia faz sentido, visto que já há times no estado que estão consolidados na categoria FullPad. De nada adianta juntar o dinheiro para comprar o material e sair jogando logo de cara com essas equipes que já dominam o jogo. “O Crows considera mais importante se estabelecer como time primeiro para depois dar o próximo passo. Equipar-se é consequência do trabalho, não causa”, alerta Wendell Ferreira, diretor de relações públicas do Porto Alegre Crows.

Por mais que o esporte esteja em ascensão no Rio Grande do Sul, verbas publicitárias no esporte gaúcho são voltadas ao futebol tradicional, praticado com a bola redonda. Contudo, não é impossível achar patrocinadores para auxiliar no crescimento dos clubes e do esporte. “Aos poucos, à medida que a marca se estabelece, a diretoria tem mais argumentos para convencer os potenciais patrocinadores de que investir no futebol americano pode ser rentável para todo mundo”, defende Wendell.

Mesmo no futebol americano, é possível dar o famoso “jeitinho brasileiro”.  Uma saída que os jogadores do Brasil encontram é comprar material usado em grupos de compra e venda de equipamentos no facebook. Além de materiais usados, têm pessoas que conseguem materiais novos, além de lojas que divulgam seu produto. Mas, em um país que já tem um futebol como carro-chefe, não há como comparar os dois. Porém, já podemos abrir os olhos e enxergar além e ver o quanto é legal descobrir um esporte novo.

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