Sufocados, gaúchos buscam alternativas para enfrentar a crise

Crise financeira no estado obriga gaúchos a economizar e encontrar outras saídas - Crédito: Shutterstock / Images
Crise financeira no estado obriga gaúchos a economizar e encontrar outras saídas – Crédito: Shutterstock / Images
Com dívidas acumuladas, o Estado atrasou o pagamento dos funcionários, os juros aumentam e a inflação sobe. Agora, os gaúchos buscam uma forma de lidar com a crise e não terem grandes prejuízos ao fim de cada mês.

Por Ethiene Antonello
Jornalismo Econômico / Manhã

O Rio Grande do Sul é a quarta maior economia do Brasil devido ao PIB, que chega a 8,8% do total nacional, superado apenas por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, respectivamente, segundo o IBGE. Porém, o ano de 2015 está sendo complicado para a economia gaúcha, que enfrentando uma grande crise financeira. Ela começou há cerca de 40 anos e o motivo é que o governo estadual gastou mais do que arrecadou entre os anos 1971 e 2014. O saldo negativo foi se acumulando, e o valor da dívida também.

A origem desta crise divide-se em dois principais pontos: descontrole dos gastos públicos, em especial da folha de pagamentos dos funcionários ativos e inativos, que compromete cerca de 70% da verba mensal do Estado; e a dívida pública com a União. Também existem outros motivos menores mas que também são consideráveis, como a falta de incentivos fiscais para atrair e manter empresas, a não confirmação do Mercosul, que seria um mercado interessante, aumento de alíquotas de ICMs, tornando os produtos gaúchos  mais caros. Diversos setores são afetados diretamente, dentre eles o da estética e beleza e o do transporte, que buscam alternativas para enfrentar o momento.

Gráfico mostra como se originou a dívida pública do Rio Grande do Sul - Crédito: Zero Hora
Gráfico mostra como se originou a dívida pública do Rio Grande do Sul – Crédito: Zero Hora

Indústria da beleza lutando contra a crise

Depois de identificar queda de faturamento principalmente no segundo semestre do ano, proprietários de empresas buscam soluções para lidar com a crise. A esteticista Ariele da Rosa Paganini, 21 anos, dona do Centro Estético Innove, localizado em Porto Alegre/RS, conta que os clientes querem parcelar em mais vezes os serviços e que vão com menos frequência à estética.

Para lidar com esta situação desfavorável, Ariele precisou tomar algumas providências, como fazer mais promoções, pacotes e melhorar as condições de pagamento. Segundo a esteticista, também foi preciso reajustar valores de tratamentos em que a energia elétrica é utilizada, além de economizar principalmente no ar condicionado.

“A conta de luz dobrou. A mesma cobrança que ano passado vinha R$80,00 este ano vem R$160,00”, conta, com indignação. Segundo Ariele, sua esperança era que com a aproximação do verão, a procura por tratamentos estéticos aumentasse, mas não foi o que aconteceu. “Ano passado nesta época estávamos com a agenda cheia, mas neste ano o movimento caiu pelo menos na metade”, lamenta a esteticista.

Demissão de funcionários: uma alternativa para a crise

Por mais que busque outras alternativas, a diminuição no quadro de funcionários foi uma das soluções encontradas pela empresária Sinara Peixoto, proprietária da empresa Sinval Transportes, localizada em Viamão/RS. Segundo ela, a transportadora, que trabalha com transporte escolar, empresarial e turístico, teve uma notória queda de solicitações a partir de junho deste ano.

“A diminuição foi aos poucos, mas notei uma grande diferença a partir de junho. Perdemos vários clientes, como crianças de transporte escolar e contratos bons com grandes empresas”, relata a empresária.

Sinara Peixoto, proprietária da empresa Sinval Transportes, percebeu a queda de solicitações a partir de junho deste ano - Crédito: Ethiene Antonello
Sinara Peixoto, proprietária da empresa Sinval Transportes, percebeu a queda de solicitações a partir de junho deste ano – Crédito: Ethiene Antonello

Sinara Peixoto conta, ainda, que muitos pais começaram a atrasar o pagamento do transporte escolar de seus filhos, o que raramente acontecia: “Quando o estado parcelou os salários dos funcionários, os pais também começaram a atrasar os pagamentos. Comecei a tirar os juros e fazer negociações, porque eu sabia que os pais não tinham culpa e eram clientes que sempre pagavam em dia. Então, começamos a negociar pagamento”.

Além disso, muitos pais também foram demitidos de seus empregos e, automaticamente, tiraram os filhos do transporte. Segundo Sinara Peixoto, em 2014 a empresa transportava cerca de 300 crianças, e neste ano perderam em torno de 50 delas.

Recentemente o diesel aumentou em 6% e o salário dos funcionários da empresa Sinval Transportes subiu 10%. Sendo assim, a empresária precisou demitir três motoristas e dois estão com aviso prévio, sabendo que podem sair a qualquer momento. “Estou tendo que diminuir o quadro para economizar, não tem jeito”, justifica Sinara Peixoto, que busca alternativas em meio à crise.

A crise vista por um economista

Alexandre Leitzke vê com pessimismo a crise no Rio Grande do Sul - Crédito: Ethiene Antonello
Alexandre Leitzke vê com pessimismo a crise no Rio Grande do Sul – Crédito: Ethiene Antonello

Para o gerente de planejamento econômico do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), Alexander Nunes Leitzke, a solução para a crise é complicada e ocorrerá a longo prazo. “Minha visão é pessimista, pois não vejo saída no curto e médio prazo. Apesar do governo estar fazendo um grande esforço para equilibrar as finanças, cortando tudo que é possível e aumentando impostos, acredito que daqui a alguns anos estaremos novamente com o problema no colo. A solução é complexa e não passa somente pelo governo”, analisa o economista.

Alexander Leitzke trabalha em um banco de fomento, ou seja, que investe e financia empresas e projetos. Ele relata que este ano percebeu uma retração no mercado de uma forma geral, o que resulta em uma redução dos investimentos: ”Percebi esta retração em especial no segmento terciário (indústria) em que várias empresas acusaram dificuldades e estão demitindo funcionários. O segmento de serviços também foi afetado, mas em menor escala. O agronegócio é o setor que ainda está bem com boas safras e bons preços”. Alguns setores são economicamente mais afetados que outros, mas a certeza é que todos estão em busca de alternativas para enfrentar a crise.

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