Em terra de gaúcho quem produz erva-mate é rei

O Rio Grande do Sul, maior consumidor de erva-mate do Brasil, produz apenas 40% do que consome. Fontes consultadas pelo blog de Jornalismo Econômico da UniRitter atribuem a escassez crescente do produto ao avanço da soja em áreas antes destinadas ao mate.

Por Bárbara Figueiró Scussel
Jornalismo Econômico / Noite

A cultura do chimarrão é bem antiga. Desde o século 16 índios guaranis que viviam na Argentina já tomavam a bebida com folhas da árvore em um pequeno porongo. A tradição foi passada aos colonizadores espanhóis e mais tarde disseminada por várias regiões do mundo.  Hoje, cinco séculos depois, se existe um lugar do Brasil onde a cultura de reunir a família e tomar um bom chimarrão está mais enraizada no dia a dia, sem dúvidas é no Rio Grande do Sul.

Simbolo do tradicionalismo gaúcho, a bebida de gosto amargo ganhou até dia especial: 24 de abril é comemorado o Dia Estadual do Chimarrão. Tamanha adoração, no entanto, não é correspondida na hora da produção das árvores da erva-mate.

De acordo com o Sindicato da Industria do Mate no Estado do Rio Grande do Sul (Sindimate), apesar dos gaúchos serem os maiores consumidores, produzem apenas 40% da demanda. O restante é trazido do Paraná e de Santa Catarina que são os grandes produtores da erva no país.

A última pesquisa de Produção da Extração Vegetal e Silvicultura divulgada pelo IBGE mostrou que pelo segundo ano consecutivo a erva-mate teve o maior crescimento entre os produtos do extrativismo. Em 2014, o aumento foi de 11% na produção encerrando o ano com mais de 333 mil toneladas do produto. O estado do Paraná aparece no topo do ranking responsável por 86,3% da produção nacional. Santa Catarina, o segundo colocado, produz 7,6% e o Rio Grande do Sul fica na lanterna com só 6,1%.

Diminuindo a cuia

Já não é um fenômeno recente: a cuia dos fãs de chimarrão está ficando cada vez menor. Quem confirma a mudança de hábito é o administrador de uma das bancas mais antigas do mercado público de Porto Alegre especializada na venda de erva-mate, Roberson Groff. Desde 1978 a família dele trabalha com o comércio do produto a granel no centro da Capital na banca Rancho Gaúcho. Por lá a crise econômica enfrentada pelo Brasil também chegou e gerou um impacto de 50% a 60% nas vendas.

A erva mate em números

“Quem gosta de chimarrão não deixou de tomar, apenas diminuiu a quantidade de vezes. Antes como era um preço bem acessível tinha gente que tomava chimarrão de manhã, de tarde e de noite. Estava sempre trocando a erva da cuia. Agora deu uma freada no consumo”, disse o comerciante. Groff informou ainda que foi obrigado a se adequar à crise econômica diminuindo a quantidade de compra e as despesas com os empregados.

Porém se engana quem pensa que a cuia diminuiu só a partir da crise econômica que se intensificou em 2015. Segundo o presidente do Sindimate, Gilberto Heck, em 2013 a erva-mate subiu quase 400% de preço e impôs mudanças bruscas no hábito dos gaúchos. A principal explicação foi a queda de produção naquele ano.

“Com um grande incentivo a produção de soja, muitos produtores de mate derrubaram suas árvores e passaram a produzir o grão. Com isso o mercado enfrentou a escassez de matéria prima e uma enorme alta nos preços”, relembra.

Outro fator que talvez explique o desinteresse em produzir mate aqui no Estado e a opção pela soja é o tempo que demora para chegar ao produto final. Uma árvore de erva-mate leva em média 6 anos pra chegar ao tamanho ideal para a colheita. Mesmo assim 35 mil famílias de pequenos agricultores gaúchos dependem da produção da erva-mate com destaque para os municípios de Ilópolis, Arvorezinha, Palmeira das Missões e Venâncio Aires que é considerada a Capital Nacional do Chimarrão.

O futuro da erva

Se em 2013 os consumidores se chocaram com a enorme alta no preço do mate, conforme Gilberto Heck, as perspectivas são boas para o futuro, pelo menos por parte do consumidor. Isso porque em 2014 o mercado já tinha conseguido estabilizar os preços. Neste ano houve uma pequena queda no valor do quilo e em 2016 é prevista uma diminuição ainda maior no preço do produto.

Se para os consumidores essa é uma boa noticia, que provavelmente dará pra tirar do armário aquela cuia maior, para os produtores a queda do preço preocupa. O Sindimate prevê que o valor pago ao produtor diminua devido ao excesso de matéria prima no mercado no próximo ano. Vai sobrar erva-mate nas prateleiras dos comércios.

Pensando nisso Heck acredita que no futuro é preciso ampliar a cultura da erva-mate e vê-la não apenas como matéria prima do chimarrão, mas como algo possível de ser consumida de outras formas.

“A erva-mate tem muitas propriedades medicinais que devem ser exploradas. É preciso utilizá-la também em forma de chá, na culinária e em refrigerantes para atingir mais consumidores e o mercado  que até então não conseguimos conquistar com o chimarrão, como o estado de São Paulo, por exemplo”, defende Heck.

Com um futuro econômico não muito promissor e ainda com o aproveitamento da erva-mate muito restrito ao chimarrão podemos parafrasear o dito popular e concluir: em terra de gaúcho, quem tem erva-mate é rei!

 

 

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