Uma esperança para a cadeia produtiva do carnaval

Carnavalescos aguardam há anos conclusão do Complexo Cultural do Porto Seco – Crédito: Arquivo Pessoal Tânia Regina
As escolas de samba de Porto Alegre aguardam a burocracia municipal para dar início a oficinas viabilizadas por meio de uma parceria com o Ministério da Cultura para desenvolver a cadeia produtiva do carnaval na cidade.

Por Jocelias Costa
Jornalismo Econômico / Noite

Defende-se teoricamente que o ano no Brasil só começa depois das férias escolares e dos festejos do carnaval, que nos últimos anos vem ganhando status de um grande evento nas principais praças do país. Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória, Florianópolis, Salvador e Recife investem forte atraindo milhares de turistas e movimentando o mercado de trabalho. E Porto Alegre?

Por muitos anos o carnaval da capital gaúcha foi considerado o terceiro melhor do país perdendo apenas para o carnaval carioca e paulistano. Historicamente o carnaval da capital gaúcha contribuiu muito para o desenvolvimento cultural da cidade, revelando talentos que fizeram sucesso pelo país como Lupicínio Rodrigues, Bedeu, Luis Vagner e a turma do grupo Pau Brasil que começaram nos blocos e entidades carnavalescas.

Mesmo com dificuldades financeiras, o carnaval porto-alegrense realizou neste ano os desfiles das escolas no Complexo Cultural do Porto Seco. Em seu discurso na abertura, o prefeito José Fortunati informou que recebeu pressão para que fosse adiado a festa dos blocos e das escolas de samba, mas manteve o calendário carnavalesco pensando no movimento econômico e na mão de obra dos profissionais que trabalham durante o ano para colocar a escola na avenida.

Em 2016, o Rio Grande do Sul vivenciou uma das suas maiores crises em se tratando de carnaval. Segundo levantamento da Federação de Associações de Municípios (Famurs), realizado no mês de fevereiro, 151 dos 193 municípios que responderam informaram que não investiram no carnaval.

Locais como Santa Maria, que possui um dos mais tradicionais carnavais do estado, alegaram que investiriam a verba destinada para as festividades em outros setores que necessitavam de melhoria na sua infraestrutura.

O trabalho realizado pela Famurs ilustra que as prefeituras gaúchas tiveram uma perda de R$ 956 milhões de reais em 2015, devido à redução nos repasses do Fundo de Participação dos municípios. As cidades que resistiram à crise apresentaram um carnaval modesto e com poucos recursos, mas o suficiente para colocar os blocos e as escolas na rua.

O carnaval do improviso 

A prefeitura de Porto Alegre destinou R$ 1,6 milhão para as escolas de samba - Crédito: Arquivo Pessoal Tânia Regina
A prefeitura de Porto Alegre destinou R$ 1,6 milhão para as escolas de samba – Crédito: Arquivo Pessoal Tânia Regina

Os carnavalescos de Porto Alegre dependem do poder público para realizar a sua festa, exceção feita nos anos 50 quando o carnaval foi patrocinado pela Associação recreativa Porto-alegrense, pelo jornal Diário de Noticias e pela Pepsi, através do português Heitor Pires, representante da empresa na capital.

Atualmente as escolas de samba recebem um cachê do executivo municipal, mas a grande reclamação dos dirigentes em 2016 foi o prazo de pagamento desses valores. A prefeitura destina o valor de R$ 1.690.000,00 para as escolas de samba. As dez entidades do grupo Especial recebem R$ 1.150.000,00 e R$ 540.000,00 vão para as 17 escolas dos grupos de acesso.

As entidades receberam a última parcela do cachê faltando poucos dias para o início dos desfiles, por isso todas reclamaram da crise financeira e apostaram em um carnaval modesto no complexo cultural do Porto Seco.

Escolas de samba como Imperadores do Samba, tradicional no carnaval da cidade, recebeu 100 mil reais de verba da prefeitura municipal e em 2016 quando apresentou o enredo “Vida vai, vida vem. Qual é o segredo que a vida tem?”, conquistou o terceiro lugar gastando trezentos mil reais para colocar a escola na avenida. 

O presidente da escola, Rodrigo Costa, afirma que para o carnaval 2017 a Imperadores mudará a forma de trabalho. “Reduzimos o número de funcionários remunerados. Hoje trabalhamos com uma comissão de carnaval, onde a maioria dessas pessoas é abnegada, o que ajuda a diminuir o custo em relação a mão de obra. Vamos fazer o que temos em casa com o pessoal da escola”, relata o carnavalesco.

Muitas das entidades sobrevivem dos ensaios que iniciam no início de outubro, algumas de aluguel da quadra de ensaios e de apresentações do grupo em show para empresas ou festas de aniversários. Os Imperadores do Samba chegam a arrecadar 120 mil reais no período de ensaios da escola que acontece de outubro a fevereiro.

Outra tentativa de realizar um carnaval de luxo é a busca do enredo patrocinado, onde são escolhidos enredos falando de uma cidade ou empresa com o objetivo de um aporte financeiro.

“O carnaval de Porto Alegre é diferente das outras cidades. É muita coisa improvisada, quem faz o verdadeiro carnaval criativo somos nós que fizemos um espetáculo em proporção gigante com poucos recursos. E assim mesmo conseguimos endividar as nossas escolas”, destaca Silvio Oliveira, carnavalesco da escola Bambas da Orgia.

Silvio trabalha com nove profissionais no barracão da escola de samba. O pagamento destes profissionais depende da função. Por exemplo, um serralheiro chega a receber R$ 800,00 por semana, tem o gasto com profissionais de escultura que chega a R$ 25 mil reais.

Porto Alegre e a cadeia produtiva     

Na opinião do carnavalesco Silvio de Oliveira o carnaval das escolas de samba da cidade precisa qualificar a mão de obra para obter sucesso. E neste ano a Secretaria Municipal  de Cultura e as entidades carnavalescas receberam uma boa notícia. A realização de uma parceria com o Ministério da Cultura para desenvolver a cadeia produtiva do carnaval na cidade.

Com o projeto, lançado em 2013, a prefeitura captou R$ 3,3 milhões para financiar a compra de material para a realização de oficinas para formar profissionais para as escolas de samba. O projeto prevê a realização de cursos para bordadeiras, costureiras, marceneiros, serralheiros entre outros profissionais.

A quantidade de material recebido pode ser benéfica para a construção de um carnaval de qualidade em 2017. O início das oficinas estava previsto para abril deste ano, mas devido às questões burocráticas o processo está sendo adiado. O material está no depósito da Secretaria Municipal da Fazenda apenas aguardando a liberação para serem distribuídas para as entidades que ficarão responsáveis.

Entre esses materiais guardados no depósito da secretaria estão ferro para a montagem de alegorias, madeiras, tintas, plumas, tecidos e arames para confecção de fantasias.

“As oficinas são de responsabilidade da prefeitura e serão realizadas no barracão da Liga das Escolas de Samba no Porto Seco. São seis meses de curso, provavelmente estaremos no carnaval e estarão sendo realizadas as oficinas”, explica Tânia Regina, ex-destaque do carnaval da cidade, responsável pelo Processo da Cadeira Produtiva do carnaval. 

O salto de qualidade do carnaval de Porto Alegre

Em 2004, foi realizado o primeiro desfile no Complexo Cultural do Porto Seco, talvez a última opção de um espaço para os desfiles das escolas de samba que tinha como projeto original a construção de um complexo que seria construído onde é localizada a avenida Edvaldo Pereira Paiva, idealizado pelo prefeito Alceu Collares na segunda metade dos anos 80. Mas sofrendo muitas restrições dos moradores do bairro Menino Deus a prefeitura e os carnavalescos se viram obrigados a partir para o extremo norte da cidade.

Após doze anos de desfiles, o Complexo Cultural do Porto Seco passa por um dilema que é a construção da estrutura definitiva das arquibancadas. Neste período a prefeitura já gastou cerca de R$ 30 milhões de reais para a montagem da estrutura provisória, valor suficiente para a conclusão do complexo.  Somente em 2016 foram investidos R$ 2.648.000,00 para a montagem de estrutura da Passarela Carlos Alberto Barcellos, o Roxo.

Joaquim Lucena Neto, baluarte do carnaval da cidade e que desde 2004 exerce a função de coordenador das manifestações populares da prefeitura, acredita que o carnaval de Porto Alegre somente será rentável para a cidade após a conclusão do complexo.

“O carnaval de Porto Alegre chegou em um estágio que para conseguir o salto de qualidade só quando obtivermos o complexo com arquibancadas e camarotes. Assim iremos fazer com que o sambódromo seja um pólo de cultura. Poderemos expandir a nossa cultura  para o restante do país  e também para os nossos vizinhos  do prata – argentinos e uruguaios –, assim teremos o interesse do próprio comércio e da rede hoteleira da cidade. Se hoje alcançamos uma arrecadação de R$ 300 mil, com certeza teríamos um ganho de quase cinco milhões”, aposta Joaquim Lucena Neto.

O carnaval em 2017 está agendado para a última semana de fevereiro. Diferente deste ano, as entidades ganham mais tempo para trabalhar e satisfazer o público que prestigia o carnaval de Porto Alegre.

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