O real preço da fama

Os gastos para a realização de um show normalmente não são de conhecimento do público. Na foto, o cantor sertanejo Gabriel Smaniotto – Crédito: Matias Werd
Os investimentos e desafios de artistas a caminho do sucesso são desconhecidos do público. Quanto custa para um cantor independente dar seus primeiros passos rumo à carreira tão sonhada? Será que há espaço para esses novos talentos na atual cena musical gaúcha?

Por Débora Neto
Jornalismo Econômico / Manhã

Engana-se quem pensa que fama é sinônimo de riqueza. Que o sucesso vem fácil. Que visibilidade é reconhecimento. Entrar no mercado musical é uma das tarefas mais difíceis desde os primeiros passos da carreira. Dedicação e vontade muitas vezes não bastam. São horas de ensaios diários, abdicação de tudo que possa interferir, mais gastos do que lucro. Dinheiro, influência, renome, tudo se resume a essas três palavras.

Nos bastidores de uma carreira musical, existe muito trabalho e gastos invisíveis para o público. Quem assiste um cantor com seu violão tocando na noite de Porto Alegre não enxerga nem metade dos custos pra ele estar ali.  Essa desinformação por parte do público e até mesmo do contratante desvaloriza o esforço, fazendo artistas apresentarem um show muitas vezes por um prato de comida.

O cantor sertanejo Gabriel Smaniotto começou a traçar sua carreira com 13 anos, quando postava vídeos no Youtube. Vendo a ótima repercussão, resolveu participar de festivais e logo conseguiu fazer algumas participações em shows de artistas renomados. Hoje, sete anos depois, Gabriel é cantor residente da casa noturna Wood’s Bar e, apesar de tirar bons frutos da atual colocação, não vê oportunidades na cena artística.

Gabriel trilha uma carreira de sucesso fazendo parcerias com diversos artistas sertanejos renomados - Crédito: Divulgação
Gabriel trilha uma carreira de sucesso fazendo parcerias com diversos artistas sertanejos renomados – Crédito: Divulgação

“O mercado da música está muito fechado, muito complicado, principalmente para o músico que está começando e não tem investimento. Conseguir vender seu show a um preço justo é impossível. Quem sai perdendo é a nossa música que tem tanta gente boa sem seu valor musical sendo aproveitado”, lamenta.

Rafael começou a cantar quando criança e até hoje vive em torno da música - Crédito: Musicollege
Rafael começou a cantar quando criança e até hoje vive em torno da música – Crédito: Musicollege

Rafa Strey, 25 anos, cantor e professor de técnica vocal, enxerga o mesmo cenário. “Paga-se um cachê muito baixo para os músicos que não são reconhecidos pela mídia. Aqui no nosso estado tem um ‘Clube do Bolinha’ muito forte e é muito difícil de entrar”, constata o cantor se referindo ao grupo de artistas famosos e seus produtores que inibem a entrada de novas pessoas no mercado.

 

 

A aversão ao novo dificulta a carreira de artistas independentes e o lançamento de músicas autorais. Aos nove anos, Lucas Varisco começou a tocar violão. Hoje com 23, ele não sente mais a mesma relação que existia anos atrás do público com a música. Lucas segue carreira com sua banda de rock pós-moderno New Age Travellers.

“Em shows, esse cenário de desvalorização da novidades é mais visível. Preferem setlists com os mesmos sucessos de 20 anos atrás. Não são poucos os lugares que vetam o repertório autoral e tem uma exigência rigorosa quanto à seleção das músicas. No fim as pessoas não estão preocupadas com o desempenho musical e a sua identidade sonora, mas sim com a experiência que aquilo vai causar na sua festa”, explica o músico que também é produtor musical.

Os primeiros passos

Para cada música autoral ser escrita, arranjada, gravada e produzida, são meses de trabalho. Não só de trabalho, mas de estudo. Não só de estudo, mas de arrecadação. Tudo é custo. O registro da música, o cadastro da obra, a pré-produção, o deslocamento, o estúdio de ensaio e de gravação, o aluguel dos equipamentos, a divulgação, a distribuição.

Paulinho cresceu com grandes artistas regionais frequentando sua casa e não viu outra escolha se não seguir o mesmo caminho - Crédito: Carol Augsten
Paulinho cresceu com grandes artistas regionais frequentando sua casa e não viu outra escolha se não seguir o mesmo caminho – Crédito: Carol Augsten

Filho do comediante Paulinho Mixaria, o rockeiro Paulinho Rahs, 20 anos, conduz a banda Arcadia desde 2013. No início do ano, o grupo se deparou pela primeira vez com essa lista de gastos, quando lançou seu primeiro EP – um CD com menos músicas, de 3 a 5. “Tivemos que pedir dinheiro emprestado e depois ir pagando, pois o estúdio só aceitava pagamento antecipado. Foram cerca de R$ 6.500,00 pra dar vida a este projeto”, conta.

Como músicos independentes (sem vínculo com produtoras e gravadoras), é preciso sintonia e dedicação do grupo, cada detalhe faz total diferença e cada um faz um pouco. “Em grande parte dos nossos eventos eu mesmo ataquei de produtor fazendo sociedade com dono de casa de show, investindo em divulgação e atrações para o evento. Em algumas vezes tomei prejuízo. No entanto, a maior dificuldade no trabalho, na minha visão, é gerir pessoas e manter todas focadas”, avalia Paulinho.

Lucas passou por diversas bandas de diferentes estilos musicais mas hoje encontrou sua verdadeira paixão na New Age Travellers - Crédito: Divulgação
Lucas Varisco passou por diversas bandas de diferentes estilos musicais mas hoje encontrou sua verdadeira paixão na New Age Travellers – Crédito: Divulgação

Apesar de o valor assustar quem recém engatinha no mercado, os números não variam muito. Lucas Varisco, que produziu o EP da sua própria banda há dois, ajudou o blog de jornalismo econômico da UniRitter a levantar os custos médios do mercado.

Gravação, mixagem e masterização custam em média R$ 5.000 para um EP de cinco faixas. Dependendo do orçamento disponível, é possível gravar até por R$ 2.000 em estúdios caseiros, de menor qualidade. A criação da arte varia conforme o conceito do disco e o tipo de produção (com fotos, com arte personalizada). Em média, com R$ 500 dá para fazer algo legal. Ainda tem  a prensagem do EP Físico. Em uma empresa especializada em prensagem de CD’s, para fazer 1.000 cópias gasta-se R$ 2.000. Quanto maior a quantidade, menor o preço unitário.

    Valores dos estúdios de Porto Alegre em novembro de 2016

tabela estúdios

Os direitos

Direito autoral é um conjunto de direitos conferidos por lei ao criador de uma obra, para que este possa ter benefícios morais e patrimoniais como resultado da exploração de suas criações artísticas, literárias ou científicas (textos, livros, pinturas, esculturas, músicas, fotografias). Os direitos morais asseguram a autoria da obra e são intransferíveis. Já os direitos patrimoniais se referem principalmente à utilização econômica da obra, podendo ser transferidos ou cedidos a quem o autor quiser. Para assegurar esses direitos é feito o registro e cadastro de todo trabalho. É importante também diferenciar esses dois processos.

Ambos têm a função de proteger e assegurar a autoria da sua obra - Crédito: Débora Neto
Ambos têm a função de proteger e assegurar a autoria da sua obra – Crédito: Débora Neto

O registro pode ser feito pelo site da Biblioteca Nacional e, além do preenchimento de um formulário, é necessário anexar à requisição a partitura da(s) obra(s), gravação em áudio, gravação no formato MIDI, tablatura, cifra e letra. O registro de cada música custa de R$ 20 a R$ 40.

Já o cadastro é feito por uma das nove associações musicais ligadas ao ECAD, tais como a União Brasileira de Compositores (UBC) e a Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), e tem três etapas. O ECAD é um órgão privado brasileiro responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas que são executadas publicamente aos seus autores. São as suas associações integrantes as responsáveis pela fixação dos preços e regras de cobrança, e pela distribuição dos valores arrecadados.

Por isso a primeira das três etapas do cadastro é se associar à sociedade como autor/compositor, intérprete, editor, músico ou produtor fonográfico. É indicado também, mas não necessário, fazer o registro de pseudônimo (nome artístico), para que não haja cópias. O custo é de R$ 75 em média.

A segunda etapa é o cadastro em si que custa cerca de R$ 45 por música e pode ser feito por uma Editora Musical, que enviará à associação um documento chamado Ficha 158, com percentuais e prazos acertados pelas partes ou através de uma declaração de repertório preenchida, assinada e enviada por um dos autores à Abramus.

A carteira de pseudônimo não é obrigatória, mas ajuda a proteger o nome fantasia do artista - Crédito: Débora Neto
A carteira de pseudônimo não é obrigatória, mas ajuda a proteger o nome fantasia do artista – Crédito: Débora Neto

Para que o processo seja concluído, o terceiro passo é a geração de um código de registro universal chamado ISRC. O International Standard Recording Code é como se fosse a certidão de nascimento da música, faz com que ela tenha validade e seja reconhecida em qualquer lugar do mundo. Esse código de barras armazena informações como interpretes, compositores, produtor musical, estúdio gravado, direitos de cada um no processo, data de lançamento, entre outros. Ele pode ser gerado através do estúdio onde as faixas foram gravadas ou com um produtor fonográfico cadastrado que tenha o software. O valor do programa é de R$ 150.

Música para o mundo

Graças à internet, hoje o processo da prensagem é muitas vezes substituído pelo streaming. As plataformas streaming são bases de distribuição mundial de dados multimídia via internet. Elas permitem que um usuário compre ou reproduza conteúdos protegidos por direitos autorais sem a violação destes, já que a mídia não fica armazenada no HD, o que seria classificado como cópia ilegal (como quando se faz download).

O mercado já mostra uma forte aceitação às plataformas e a tendência é que o consumo da música dessa forma duplique no próximo ano. Segundo pesquisa da Pinpoint Market Research, em 2015 o streaming representava 31% do consumo musical, superando plataformas tradicionais e conceituadas como rádio (26%) e o Youtube (12%). Entre os maiores e mais conhecidos meios estão o Spotify, Tidal, Apple Music, SoundCloud, Deezer, iTunes e Napster.

O uso de streaming no Brasil é maior entre os jovens de 15 a 24 anos - Crédito: Divulgação
O uso de streaming no Brasil é maior entre os jovens de 15 a 24 anos – Crédito: Divulgação

A distribuição de royalties para os artistas é feita por uma empresa contratada pelo autor para compartilhar as músicas nas plataformas, sendo o iTunes o mais rentável pagando seis a sete dólares por álbum e 65 centavos de dólar por música. Das mais usadas, o Spotify paga 0,007 centavos de dólar por stream e o SoundCloud ainda não paga, mas o fará em breve.

Gabriel, Lucas, Rafael e Paulinho já têm suas músicas autorais nas plataformas. “Coloquei em todas redes de streaming uma música própria, o single de um EP autoral que eu tava gravando e parei por falta de verba. Tá lá até hoje inclusive. O nome da musica é Em Vão, coloquei em uma plataforma chamada CDBaby”, conta Rafael.

A plataforma, que cobra US$ 35 por single e US$ 90 por álbum, também foi utilizada por Lucas e Gabriel. “As minhas músicas estão disponíveis em praticamente todas as plataformas. É um pacote completo”, diz o cantor sertanejo. Paulinho usou o mesmo método, no entanto no site TuneCore, que cobra US$ 30 e faz uma avaliação no material.

A música na vida de Vinicius veio como herança e incentivo dos pais que sempre se interessaram e passaram o gosto ao filho - Crédito: Divulgação

A música na vida de Vinicius veio como herança e incentivo dos pais que sempre se interessaram e passaram o gosto ao filho – Crédito: Divulgação

Cantor, compositor e multi-instrumentista, Vini Diniz trabalha e vive da música cantando e bares e eventos de Porto Alegre. Apesar de ter músicas suficientes para mais de um CD, o artista ainda vê dificuldade em conseguir divulgar sua música, se tratando de um trabalho independente.

“Penso em colocar minhas músicas no streaming, mas precisa se registrar como compositor, registrar a canção, ensaiar, produzir, gravar, para depois impulsioná-las nessas plataformas e isso é um processo muito longo e caro para quem não tem um investidor”, explica o cantor de 21 anos.

A palavra dos produtores

Apesar do custo alto, estúdios de boa qualidade são muito importantes para o possível sucesso da obra - Crédito: Divulgação
Apesar do custo alto, estúdios de boa qualidade são muito importantes para o possível sucesso da obra – Crédito: Divulgação

Engenheiro de áudio e produtor musical, Vinicius Bancke, 31 anos, está no ramo da música desde sua adolescência. Em 14 anos de estrada, o também instrumentista carrega em sua trajetória algumas bandas, uma faculdade de licenciatura em música e um estúdio que é referência no Estado. “Foi durante minha graduação que despertei para área da gravação de áudio. Ao me formar pedi uma oportunidade ao meu atual sócio e de ajudante passei a ser dono de parte do Estúdio Suminsky”, conta.

O produtor vê essas novas plataformas como uma forma mais ampla de divulgação de novos artistas, mas acredita que ainda falta preparo para um real aproveitamento delas. “Os sites e aplicativos mais recentes facilitaram para que aqueles que já trabalhavam com música fizessem com que um número maior de pessoas pudesse os conhecer. O problema é que ainda há material de pouca qualidade então fica difícil ter um retorno positivo”, explica Vinicius.

André Brasil, 35 anos, e Amaro Neto, 37 anos, também são produtores musicais e compartilham da opinião do colega. “Existe uma enorme falta de noção de como se deve proceder. Somos pouco ou nada educados musicalmente para administrarmos nossas próprias ideias, empreendimentos. Para gerarmos o fonograma (CD) como produto a ser consumido, é necessário utilizar recursos caros, ainda mais no Brasil. Então o artista acaba produzindo seu trabalho”, analisa Amaro.

Além disso, segundo André, o público também não está pronto para receber o material desses músicos. “A nossa sociedade está bem pouco preparada para artistas novos. A gente é ensinado desde pequeno a não reconhecer e não ver coisas novas, e não estar aberto a isso. É uma realidade de mercado onde o músico acaba sendo animador de festa”, lamenta o produtor.

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