O ‘reporteiro’ se despede da redação da Zero Hora

Por Anderson Aires
Jornalismo Econômico / Manhã

Carlos Wagner (64), um dos jornalistas mais premiados do Brasil, anunciou nesta semana, em entrevista ao site Coletiva.net, que deixará neste mês a redação do jornal Zero Hora, em Porto Alegre (RS). A equipe do Blog de Jornalismo Econômico da UniRitter presta sua homenagem ao “reporteiro”, como ele gosta de se apresentar, e publica entrevista realizada no último dia 23 de setembro. O casamento de Wagner com a RBS durou 31 anos.

O tema da conversa foi a série de reportagens, publicadas em 1993, sobre o Jogo do Bicho em Porto Alegre. O trabalho, que levou sete meses para ser apurado, descaracterizou o estereótipo de “bandido boa praça” criado em torno dos senhores do jogo bicho, revelando histórias até então desconhecidas pela população gaúcha. A reportagem pautou a sociedade em torno de um tema nebuloso, por meio de um material produzido com extrema profundidade e uma apuração incansável, que só um bom “reporteiro” – jornalista com o pé na estrada – poderia fazer.

Na redação

São mais ou menos nove horas da manhã, chego à redação da Zero Hora e me deparo com o bom e velho “zum zum zum” do habitat natural desta classe trabalhadora. Apresento-me ao meu entrevistado, o lendário Carlos Wagner, o premiado jornalista que traz grandes reportagens no currículo, o defensor inveterado da figura do “reporteiro”.

Ele me cumprimenta empunhando sua cuia e logo me diz: “Pode ser no tranco (a entrevista)? Me desculpa é que estou atucanado em uma apuração”, explica o vô, apelido dado carinhosamente e também em forma de respeito por seus colegas de redação.

Em 1993, Carlos Wagner abalou uma das mais estruturadas e consolidadas formas de contravenção no Rio Grande do Sul. Um assunto que carecia de detalhes e apuração jornalística. Tratava-se do submundo do jogo do bicho, prática ilegal que estende seus tentáculos por diversas cadeias ligadas a estrutura do Estado, desde políticos até órgãos de segurança pública. Wagner elaborou um material de extrema profundidade distribuído em quatro reportagens especiais no jornal Zero Hora. O assunto pautou a mídia e a segurança pública do Estado naquela época.

Confira a entrevista:

O que levou o senhor a fazer esta matéria denunciando essa prática ilegal no Estado?
Wagner – Esta matéria foi feita pelo fato de ninguém ter tratado deste assunto desta maneira antes. É um grande desafio fazer algo que nunca tenha sido feito. Foi necessária extrema profundidade e organização. Levei cerca de sete meses para finalizar a reportagem que foi um divisor de águas na abordagem do assunto.

Carlos Wagner deixa reportagem do jornal Zero Hora no dia 23 de outubro - Crédito: Anderson Aires
Carlos Wagner deixa reportagem do jornal Zero Hora no dia 23 de outubro – Crédito: Anderson Aires

Quais foram as principais dificuldades na elaboração da reportagem?
Wagner – A principal dificuldade na elaboração de uma matéria como essa é que ninguém sabe de nada. Tu tens que bater de porta em porta. Tu tens que juntar os cacos, pedacinho por pedacinho e montar a história. Pode parecer difícil, mas na verdade isso é o maravilho na profissão.

Quais os principais tipos de fonte que tu usaste para elaborar esse material?
Wagner – Eu uso, nas minhas matérias, tudo que é tipo de fonte. O cara tem que entender que ninguém joga contra si. Tu tens que comer esse prato quente pelas bordas.

Quais foram às técnicas utilizadas durante a apuração?
Wagner – A matéria foi toda investigativa. Usei práticas de infiltração, cruzamento de documentos e principalmente bati muita perna, cara. Devo ter percorrido cerca de 100 quilômetros para fazer este material, pois existiam poucas provas relacionadas ao caso. Esses bandidos praticamente não documentam nada. A polícia da época tinha poucos registros deles. Eu tive que pegar todas essas pontas e atar e isso não foi nem um pouco fácil.

Reportagem de Carlos Wagner de 1993 – Crédito: Acervo ZH
Reportagem de Carlos Wagner de 1993 – Crédito: Acervo ZH

O que chamou mais a atenção em relação ao perfil dos banqueiros do jogo do bicho?
Wagner –A impunidade. Principalmente porque na época os banqueiros do jogo do bicho eram a principal fonte de corrupção policial e do funcionalismo público. Eu não fiz uma matéria contra o jogo do bicho. Fiz uma matéria contra gângsteres que mandavam matar, que mandavam cometer incêndios e tinham um Estado paralelo.

Durante esse processo de apuração da matéria o senhor foi ameaçado em algum momento?
Wagner – Cara, ninguém consegue me ameaçar mais do que minhas ex-mulheres. Então o repórter não pode ser trouxa e ter medo disso.

Dá para se dizer que ainda hoje o jogo do bicho é um mercado paralelo em relação a economia do Estado?
Wagner – O jogo do bicho, ainda mais hoje, com a modernização e os “maquineiros” (caça-níqueis) é um Estado dentro do Estado. Esses dois negócios ilegais geram muito dinheiro.

“Se tu botares trafico de drogas, jogo do bicho e contrabando, o jogo do bicho está no primeiro lugar. Ele dá mais dinheiro do que ser traficante de drogas”.

 

É correto afirmar que a maioria das pessoas só conhece a ponta do iceberg do que realmente é o jogo do bicho?
Wagner – O jogo do bicho tem uma aparência de inocência, mas por trás dele existem gângsteres. Hoje não mudou muito, pois eles estão mais atualizados e sofisticados. São pessoas que mandam matar e que corrompem funcionários públicos de acordo com seus interesses. Hoje os caras são mais poderosos, eles têm uma infiltração grande na Brigada Militar. Então a questão é que o país tem que ver o que vai se fazer com esses caras, pois eles continuam livres e impunes e seus sucessores estão assumindo o poder.

O senhor participou de uma matéria mais atual, agora em 2012, sobre o assunto. Quais as principais diferenças encontradas pelo senhor ao longo desses 20 anos em relação a este crime?
Wagner – O jogo do bicho se modernizou. É muito dinheiro, é muito, mais muito dinheiro cara, por isso ele se adaptou através do tempo.
Policiais também estavam na folha de pagamento dos contraventores.

Em relação ao mercado de trabalho. Essa atividade ilegal emprega muitas pessoas?
Wagner – Hoje emprega menos, pois quase tudo é eletrônico, mas ele ainda é uma fonte de emprego considerável.

O jogo do bicho ainda movimenta a economia do Estado?
Wagner – Sim. A economia clandestina. Se tu botares tráfico de drogas, jogo do bicho e contrabando, o jogo do bicho está no primeiro lugar. Ele dá mais dinheiro do que ser traficante de drogas. É a atividade ilegal que mais arrecada dinheiro.

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