As mãos que tecem a economia gaúcha

Setor de artesanato pretende chegar aos 2,6% do PIB gaúcho novamente em 2014

Mais de 40 mil peças foram comercializadas na Expoargs 2014. Crédito: Anderson Mello
Mais de 40 mil peças foram comercializadas na Expoargs 2014. Crédito: Anderson Mello

Por Anderson Mello e Vanessa Magnani
Jornalismo Econômico / Manhã

Em um estado com a economia baseada na agricultura, o artesanato tornou-se uma fonte de renda criativa. Uma das maiores vitrines para este mercado em solo gaúcho é a Exposição de Artesanato do Rio Grande do Sul (Expoargs). Neste ano, ela faturou R$ 1,4 milhão na última Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer), superando em mais de R$ 400 mil a última edição. Contando com 118 estandes e a participação de 49 municípios, 218 artesãos puderam apresentar seus produtos durante dez dias.

Expoargs em números. Anderson Mello
Arte: Anderson Mello

Com matérias-primas que vão desde a porcelana delicada até as rústicas ferraduras, a 31ª edição da Expoargs comercializou mais de 40 mil produtos, que variam de R$ 5 até R$ 3 mil. A coordenadora do Programa Gaúcho de Artesanato (PGA), desenvolvido pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), Marlene Garcia, destacou que mesmo o trabalhador tendo isenção de Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), ele colabora com uma fatia significativa do Produto Interno Bruto (PIB) da economia gaúcha.

“Ele contribuiu, no último ano, com 2,6% do PIB. O artesanato é um gerador de renda, emprego e aquece nossa economia sem dúvida. Pretendemos chegar a este número em 2014 também”, declarou Marlene. Segundo a coordenadora, este cálculo é realizado por meio das emissões de notas fiscais dos artesãos. “Todas as notas fiscais são emitidas ao PGA, e com isso é possível saber o porcentual do PIB que nossa categoria é responsável”, informou.

Fato este confirmado pela Fundação de Economia e Estatística do Estado (FEE). Segundo a instituição, o artesanato superou em 0,3% a construção civil, que no último ano representou 2,3% do PIB gaúcho. Mas mais do que números, esse modelo de produção corresponde à história de muitas famílias que se dedicam à prática deste trabalho.

Nádia Garbinatto trabalha com uma matéria-prima rústica, a ferradura. Crédito: Anderson Mello
Nádia Garbinatto trabalha com uma matéria-prima rústica, a ferradura. Crédito: Anderson Mello

Um exemplo disso é o casal Marco e Nádia Garbinatto, dono da empresa Arte em Ferraduras, onde cria peças há pelo menos dez anos. Ao encontrar um grande número de peças descartadas como sucata, Marco teve a ideia de criar algum utensílio com o que encontrou. Foi assim que nasceu um porta-cuia, feito com apenas três ferraduras.

Com o tempo, Marco desenvolveu suas técnicas e, atualmente, cria móveis, porta-vinhos e paneleiros à base de ferraduras. Nádia o auxilia na fabricação e venda dos produtos e garante que a Expoargs é um grande evento. “A feira é muito importante, pois dá uma vitrine para o ano todo. Não é só o fato de fechar vendas aqui, mas também dá o retorno de outros estados, com pedidos de lojistas. Dentro do artesanato, isso aqui é tudo”, afirma. O casal também expõe seus artigos no Acampamento Farroupilha, evento que celebra a data máxima da cultura gaúcha: a Revolução Farroupilha.

Profissão: Artesão

Para divulgar seu ofício na Expoargs, o participante deve possuir a Carteira do Artesão, que também possibilita integrar outras feiras organizadas pela PGA.  Fora do Estado, o organizador é o Ministério do Trabalho. Segundo Marlene, são mais de 82 mil profissionais que possuem a carteira atualmente, onde 44 mil estão com ela em dia. Documento este que permite uma série de benefícios. “Além das isenções, eles conseguem pagar o seu INSS como profissão de artesão, o que lhes possibilitam ter respaldo previdenciário. Além disso, tem direito a uma declaração de renda na compra de imóveis e para o microcrédito”, enfatizou.

Com a carteira de artesão, o profissional possui diversos benefícios, como a isenção de Icms. Crédito: Anderson Mello
Com a carteira de artesão, o profissional possui diversos benefícios, como a isenção de Icms. Crédito: Anderson Mello

Dono da empresa Emaranhados, o artesão Jairo Teixeira salienta a importância de ter o registro que valoriza ainda mais a sua produção. “Com a carteirinha, tu tens uma credibilidade mínima, que é importante. Consigo também emitir nota fiscal eletrônica e isso me ajuda no relacionamento com uma empresa”, relatou. Com isso o processo de encomendas se torna mais ágil e seguro.

Utilizando materiais como o arame galvanizado e o alumínio, Jairo cria peças de decoração a partir de uma técnica livre há mais de 12 anos. Participando da sua 10ª edição da Expoargs, o artesão também exibe suas composições em uma banca no Brique da Redenção, um espaço que é disponibilizado para a venda de artigos.

 Jairo produz esculturas de arame há mais de 12 anos. Crédito: Anderson Mello
Jairo produz esculturas de arame há mais de 12 anos. Crédito: Anderson Mello

Arte que transforma

Em meio aos estandes, as histórias de vida dos artesãos se misturam com a representação do seu trabalho exposto em forma de produtos à venda. Muitos deles se dedicam inteiramente ao artesanato.

Para a coordenadora do PGA Marlene Garcia, o artesanato é importante não só por gerar empregos e renda para o Estado, mas também por dar vida a objetos. “O artesão é um transformador de matéria-prima, e o artesanato é uma forma de arte”, destaca. Além de contribuir para a disseminação da cultura gaúcha, os materiais para a criação de diferentes tipos de peças são reciclados.

Nádia Garbinatto, que já exportou sua arte para outros estados brasileiros e países da América Latina, salienta que sua profissão é muito gratificante: “Não trabalho para sobreviver, mas sim por prazer”.

No estande 063 foi possível encontrar peças de porcelana pintadas à mão por Eda Leal Grivot, de 73 anos, que participa da Expoargs há quase duas décadas. Empenhando-se à pintura há mais de trinta anos, ela encara o passar do tempo como uma forma de aprimoramento. “Cada pintor tem uma pincelada. Eu busco uma referência, mas cada um tem seu jeito”, acentua. Com o auxílio da sua irmã Arlette Barcellos Leal nas vendas, Eda comenta que de 2013 para cá, houve um aumento na procura de seus produtos.

Expoargs movimenta pavilhão de artesanato, na Expointer. Crédito: Anderson Mello
Expoargs movimenta pavilhão de artesanato, na Expointer. Crédito: Anderson Mello

Espaço para o artesanato indígena

Fora do pavilhão da Expoargs no Parque Assis Brasil, onde acontece a Expointer, há também um local para a comercialização de peças artesanais de índios de diversas aldeias da Região Metropolitana por intermédio da Fundação Nacional do Índio (Funai). A própria organização vai nas tribos oferecer este espaço aos interessados. Lá só é possível vender produtos feitos por índios, caso contrário ele perde o lugar.

Para a índia da tribo Kaingang de São Leopoldo, Maraci Kanhero, que sobrevive do artesanato, esta é uma ótima oportunidade de valorizar o que produz. “Nos lugares que eu vou todos gostam bastante, até porque eles querem coisa natural mesmo”, assegurou. A Funai também disponibiliza pontos próximo a shoppings e eventos culturais para disseminar e ajudar economicamente os povos indígenas.

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