Velha mídia, novo mercado: uma jornada de volta ao vinil

Basta um pequeno passeio pelo centro de Porto Alegre para logo termos a sensação de voltarmos, pelo menos, três décadas no tempo. Lugares escuros com muitos corredores abrigando anos de história. Adentramos em um desses locais. A Boca do Disco.

A Boca do Disco, loja de Getúlio Costa (à esquerda), na rua  Marechal Floriano Peixoto, em Porto Alegre. Conta com mais de 10 mil vinis. Crédito - Anderson Aires
A Boca do Disco, loja de Getúlio Costa (à esquerda), na rua Marechal Floriano Peixoto, em Porto Alegre. Conta com mais de 10 mil vinis. Crédito – Anderson Aires

Por Anderson Aires, Anderson Mello e Leandro Cougo
Jornalismo Econômico / Manhã

– Boa tarde, somos estudantes de jornalismo. Estamos fazendo uma matéria sobre a volta do vinil e gostaríamos muito de entrevistar o senhor.
Do outro lado do balcão está um senhor com seus 50 e poucos anos, cara amarrada, cabelo comprido, o típico personagem da década de 1980.

Com um olhar desconfiado ele nos desafia:
– Quanto vocês vão me pagar?
Essa pergunta, de certa forma, nos desconstrói e cria um clima de desconforto. Como futuros jornalistas, já sabemos que precisamos estar preparados para essas situações. Argumentamos então.
– Nós não pagamos por informação. Nós só queríamos contar a história do senhor em relação à loja e ao vinil.
O nosso entrevistado segue sendo hostil.
– Se vocês querem ver minha história e a da loja basta dar uma olhadinha no site, tem tudo lá, nem precisam falar comigo.
– Mas daí ficaria muito raso.
Ele finalmente dá uma longa e estridente gargalhada, nos olha e diz:
– Faz teu nome!
Enfim cedeu.

Assim foi o nosso pontapé inicial na jornada de volta ao vinil, mídia que, por incrível que pareça, é um dos principais motores da indústria fonográfica mundial. Basta analisarmos o último relatório disponibilizado pela NielsenSoundscan, sistema que mede às vendas de música e vídeo nos Estados Unidos e Canadá, em julho deste ano. Segundo a empresa as vendas de vinis nos EUA aumentaram 40,4% em relação ao ano passado.

Estamos na rua Marechal Floriano Peixoto, na Boca do Disco, loja especializada em artigos relacionados à música que atua na capital há mais de 20 anos. O nosso segundo personagem é um homem bonachão chamado Getúlio Costa, fundador do estabelecimento,  uma das referências em discos em Porto Alegre, com mais de 10 mil álbuns, entre eles alguns raros, como o da primeira banda gaúcha de rock, a Liverpool, que depois virou Bixo da Seda.

Getúlio Costa exibe disco da primeira banda de rock do Rio Grande do Sul. Crédito: Anderson Aires
Getúlio Costa exibe disco da primeira banda de rock do Rio Grande do Sul. Crédito: Anderson Aires

O dono da loja afirma não ter se reinventado para se manter no mercado, mas que surfou na onda do Compact Disc (CD). “Eu só ganhei dinheiro. Quando deu a baixa do vinil, eles vinham com 200 vinis e trocavam por 10 CD’s. Quando deu a alta do vinil, eles vinham com 200 CD’s e trocavam por 10 vinis”, relembra Costa, que encontrou um nicho rico para investir e de onde tira toda sua renda.

 A década perdida

O vinil, criado em meados da década de 1940, se consolidou no mercado através de longas e duradouras quatro décadas. Mas no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 uma nova mídia surgiu causando euforia e burburinho no mundo da música. Tratava-se do CD, um novo formato de armazenar dados que prometia mais longevidade, qualidade de som e versatilidade.

A década de 1990 foi derradeira para os “bolachões”. Muitos fãs trocaram suas coleções pelos inovadores CD’s. Eles nem imaginavam que o futuro seria cruel para o Compact Disc.

De volta ao Long Play

O mercado fonográfico brasileiro vem crescendo através de uma mídia considerada ultrapassada por muitos. Um clima de nostalgia move milhares de fãs a tirar o pó de seus aparelhos toca-discos. Isso mesmo, toca-discos!

O vinil está cada vez mais forte no mercado internacional, o que acabou impulsionando o brasileiro. Neste ano o rockstar Jack White vendeu cerca de 60 mil cópias de seu disco Lazaretto, batendo o recorde de vinil mais vendido nos últimos 20 anos, que pertencia ao Pearl Jam com o álbum Vitalogy. A informação é da Nielsen SoundScan.

O reflexo foi tão forte na indústria musical brasileira que forçou a empresa Polysom, única empresa da América Latina que prensa vinis, a reabrir suas portas para o “bolachão”. No primeiro semestre deste ano a Polysom declarou ter aumentado suas vendas em 126%.

Nos últimos anos o houve um aumento na procura pelos bolachões. Crédito: Anderson Aires
Nos últimos anos o houve um aumento na procura pelos bolachões. Crédito: Anderson Aires

A volta do vinil também serve como uma forma, eficiente, de combate à pirataria, já que não é possível copiar este formato de mídia, o que se torna uma válvula de escape para as bandas. Isso reflete no lançamento e relançamento de álbuns de músicos nacionais e internacionais, como Beatles, Pitty e The Doors.

Sem falar que o vinil é muito mais rentável a um artista que um CD ou lojas virtuais, como o ITunes da Apple. Nas e-commerces se pode adquirir músicas avulsas ou álbuns completos, tudo em mp3, por um baixo preço que pode ser inferior a US$ 1.

Venda de vinis movimenta feira no bairro Bom Fim. Crédito: Anderson Aires
Venda de vinis movimenta feira no bairro Bom Fim. Crédito: Anderson Aires

O sonho de viver do vinil

A história do dono da Boca do Disco mostra o lado de quem conseguiu se manter no mercado. Mas nem todos conseguem viver do “bolachão”. É o caso do radialista do Grupo Bandeirantes Cagê Lisboa, que sonha com o dia em que poderá ter o vinil como a única fonte de renda.

Cagê realiza bazares na capital gaúcha e no interior do estado, em cidades como Canela, Santa Maria e Pelotas. “Por enquanto não dá, de vez em quando tem que fazer rádio também. Brincadeira, eu amo fazer rádio. É que cada vez mais essa brincadeirinha aqui tá ganhando espaço”, frisa o comunicador. Para ele voltar a trabalhar com os discos é reviver sua adolescência.

Em relação ao alto custo dos Long Plays (LP’s), o radialista lembra que a mídia nunca foi barata e sempre foi necessário desembolsar uma boa grana. “O vinil importado simples, por exemplo, que eu vendo é por 100 reais, um valor alto. Mas era o preço que pagava quando era guri”, lembra. Ele acredita que só quando a oferta for maior que a procura, o valor ficará mais acessível.

O radialista Cagê Lisboa sonha poder viver só do vinil. Crédito: Anderson Aires
O radialista Cagê Lisboa sonha poder viver só do vinil. Crédito: Anderson Aires

Mídia elitizada

O engenheiro e organizador de um outro bazar que ocorre no bairro Bom Fim, também em Porto Alegre, Luciano Cauduro, vê como um vilão que atrofia o crescimento do vinil a alta taxação de impostos sobre o produto, como o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS).

“Ele é uma mídia bastante elitizada, não dá para dizer que o vinil popularizou ou voltou. Então, tem muita coisa pra acontecer se quiserem que ele volte de fato e se popularize”, lamentou o engenheiro que não vê com muito otimismo o mercado fonográfico para o disco.

De acordo com Cauduro a margem de lucro com as feiras varia muito, mas costumam ser bem pequenas. “A verdade é que o vinil ainda é um objeto para colecionadores, que são apaixonados pela a unicidade sonora que ele permite”, destaca o engenheiro.

O engenheiro Luciano Cauduro não é tão otimista em relação ao crescimento do consumo de vinis. Crédito: Anderson Aires
O engenheiro Luciano Cauduro não é tão otimista em relação ao crescimento do consumo de vinis. Crédito: Anderson Aires

Empresas e músicos ligados no movimento

As empresas que fabricam artigos ligados à indústria fonográfica estão atentas ao retorno desse formato. O exemplo claro disso é a Pionner, fabricante japonesa de aparelhos eletrônicos. Uma das mais conceituadas no mercado de alto-falantes e rádios automotivos, ela lançou neste ano o seu primeiro aparelho toca-discos. Isso mostra claramente o apelo do vinil na indústria.

Mercado de acessórios e periféricos também é impulsionada pela alta das vendas de vinil. Crédito: Anderson Aires
Mercado de acessórios e periféricos também é impulsionada pela alta das vendas de vinil. Crédito: Anderson Aires

O mercado está se reinventando na marra graças a esse ressurgimento. Esse fenômeno impulsiona não apenas a venda dos discos, mas também dos periféricos. Basta uma pequena pesquisa em alguns sites de busca para achar as tão procuradas agulhas. A alta procura por elas e a pouca oferta as tornam caras. No site de compras MercadoLivre.com , por exemplo, o preço das pequeninas varia de R$28,00 a R$157,00.

A readequação ao vinil também acontece por parte dos artistas. O excêntrico Jack White fez de seu último álbum, Lazaretto, uma revolução para o mercado de LPs. Ele lançou o ultra vinil, que é segundo o próprio White cheio de truques. Diferente dos vinis tradicionais, onde a agulha fica na borda do “bolochão”, neste a agulha precisar ficar no centro do vinil. O músico lembra que isso já foi feito no lendário disco dos Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, mas pouco explorado por outros artistas.

Outra surpresa é a de que o álbum possui duas faixas “escondidas”, no centro do disco, uma no lado A e outra no B, e que podem ser ouvidas em 78 e 45 rotações por minuto (rpm). Há também uma projeção do anjos da capa do disco, enquanto ele é tocado, isso acontece devido à alta rotação do vinil.

O mercado do vinil sabe, espertamente, lucrar muito a partir do gosto do consumidor. “Eles pegam o disco original e começam a remasterizar, lançam quatro, cinco vezes o mesmo disco e o “inteligente” sempre comprando: saiu remasterizado, saiu com bônus track. Então é uma máfia. Eles conseguem vender várias vezes o mesmo disco”, esclarece o dono da Boca do Disco.

Os números expressivos das vendas de vinil no mercado nacional e internacional materializam algo que há alguns anos era apenas suposição. O “bolachão” não apenas ganhou novo fôlego. Ele voltou a ser um dos pilares da indústria fonográfica.

Uma ideia sobre “Velha mídia, novo mercado: uma jornada de volta ao vinil”

  1. Ótima matéria. Na verdade, coleciono cds e gosto muito deles.
    O que gostaria de dizer é que a loja Boca do Disco é a melhor loja que conheço. Sou de Votorantim, interior de São Paulo e nem mesmo na Capital do meu Estado temos uma loja como essa (na Galeria do Rock não existe nenhuma loja específica de Progressivo, sendo a Aqualung de Classic Rock a que mais se aproxima disso).
    Descobri a Boca por acaso quando andava de bobeira no centro de Porto Alegre a passeio. Fiquei impressionado e gastei toda grana ao, só testando um pouco pra algum lanche no aeroporto. Voltei dois anos depois na cidade só pra ir na loja e então fui com mais “munição” e pude comprar muitos cds. Pretendo voltar logo, pois é totalmente diferente comprar pela Internet ou telefone os produtos da loja e estar dentro dela.

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