Rio Grande do Sul morde a isca do peixe importado

Malha das redes vai diminuindo conforme o tamanho dos peixes. Crédito: Maureci Junior
Crescimento nas importações, baixa produtividade e alto preço do produto regional desequilibram o mercado de pescados. Desaparecimento de algumas espécies de água doce preocupa pescadores gaúchos e gera questionamentos em relação à pesca predatória.

Por Maureci Junior
Jornalismo Econômico / Manhã

Se tiver difícil sustentar a família com a pesca, é só mudar de profissão, certo? “Não para quem passou a vida inteira dentro de um barco e não aprendeu a fazer outra coisa para sobreviver”. Essa frase é do pescador Jorge Oliveira, mas a realidade é também a de tantas famílias que cresceram nas margens dos diversos rios e lagoas espalhados pelo Rio Grande do Sul.

Só que a metamorfose econômica e ambiental mudou o cenário social destes produtores. Hoje, essa classe trabalhadora, reconhecida socialmente por sua honestidade, assina 29% dos crimes contra a fauna registrados pela Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram).

”Houve um tempo em que se podia escolher com qual peixe trabalhar, tinha variedade de espécies e safras boas. Dava para manter famílias grandes. Agora dependemos apenas do bagre e da tainha. Nossos rios e lagoas ficaram desertos”, lamenta o pescador artesanal Jorge da Silva Oliveira, aposentado, que há 50 anos depende exclusivamente do pescado extraído do Lago Guaíba e Laguna dos Patos.

Pescador mostra preocupação com a diminuição da safra na Laguna dos Patos - Crédito: Maureci Junior
Pescador mostra preocupação com a diminuição da safra na Laguna dos Patos – Crédito: Maureci Junior

A queda da produção local incita uma série de interrogações. Problemas de gestão econômica e ambientais são os mais lembrados por pescadores e comerciantes do ramo na hora de explicar o fenômeno. A questão, reclamada pelo seu Jorge, gera uma espécie de ”bola de neve”. Pois, na falta de opções, os profissionais acabaram diminuindo o tamanho da malha de suas redes para capturarem peixes menores, como a viola e o peixe-rei. E uma das consequências é o crescimento da pesca predatória.

Um exemplo que justifica a reclamação dos pescadores gaúchos é o que acontece com a piava. Típico do Guaíba e Laguna dos Patos, e valorizado por sua carne, o peixe está desaparecendo da região. “A gente largava a rede perto das pedras, em locais fundos, e vinha amarela de piava. Hoje, quando se pega uma, a gente guarda para comer, porque não se sabe quando vai malhar outra”, revela o pescador.

Uma das maiores peixarias de Porto Alegre, a Japesca tem hoje mais de 60% de suas vendas baseadas em peixes de fora do Brasil. O salmão chileno é um dos pescados mais comercializados por eles. O motivo é que a empresa rendeu-se ao mercado gastronômico de temakis e sushis. Segundo o gerente Joás Kiper, entre os peixes nacionais, os mais vendidos são os do mar, como a abrótea e a pescada.

A tilápia, criada em cativeiro, até tem boa saída, mas a produção ainda é pequena. Para Joás, tanto a oferta como a procura das espécies de água doce são insuficientes, pois “as pessoas preferem comer filés brancos, e querem o peixe o mais processado possível, de preferência, quase pronto para o consumo”.

Pescado brasileiro precisa de alternativas para disputar espaço na gôndola - Crédito: Maureci Junior
Pescado brasileiro precisa de alternativas para disputar espaço na gôndola – Crédito: Maureci Junior

Uma luz no horizonte

Iniciar na piscicultura é um investimento promissor. Quem garante é o produtor Ivo Guimarães. Segundo ele, que, em 2011, chegou a gerenciar um projeto da prefeitura de Porto Alegre para esta atividade, um açude de 300 m² (que pode ser cavado em 10 horas), custa em torno de R$ 600,00 e pode receber até 400 alevinos de tilápia. Com um punhado de ração por dia, ao final de um ano os peixes atingem um peso médio de 1,4 a 1,5 quilos. O que possibilita ao criador um lucro de 12 a 13 mil reais na venda.

A tilápia viva pode ser negociada a R$ 12,00 o quilo, e o filé fica na média de R$ 22,00. “É um mercado promissor e a manutenção não é difícil. O que falta é estimular os futuros criadores e oferecer mais cursos de aperfeiçoamento aos iniciantes”, afirma o criador. A Emater auxilia na produção. Além da tilápia, a carpa e o jundiá americano também são boas alternativas para o cativeiro.

Os números que mostram a invasão

De acordo com o Conselho Nacional de Pesca e Aquicultura (Conepe), a exportação de pescado do Brasil tem enfrentado constantes oscilações ao longo da última década. Os produtos exportados movimentaram aproximadamente 10,4 milhões de dólares em 2003. Esse valor chegou a cair pela metade em 2011, e hoje, gira na casa dos US$ 15,9 milhões.

Enquanto isso, o valor do mercado de importações saltou de 11,4 para cerca de 130 – isso mesmo – cento e trinta milhões de dólares no mesmo período. O preço do peixe que importamos aumentou mais de 160% nos últimos dez anos. Mas a valorização do produto nacional também chama a atenção.

A prova disso é que, em 2003, o volume de exportação foi de 27 mil toneladas. No entanto, no ano passado, com pouco mais de 3 mil toneladas, ou seja, um volume nove vezes menor, o valor alcançado cresceu 52%. Isso revela um aumento de 1200% no valor do pescado que mandamos para o exterior.

De 2009 para cá, houve crescimento de cerca de 1500% na importação de peixes do Vietnã, e cerca de 1000% da China. A merluza do Alasca lidera o mercado de importações. Embora seja extraída das águas da América do Norte, a polaca, como também é conhecida, é industrializada na China antes de chegar ao Brasil.

Mercado aponta crescimento gigantesco dos importados e produtores regionais se esforçam para sobreviver - Crédito: Maureci Junior
Mercado aponta crescimento gigantesco dos importados e produtores regionais se esforçam para sobreviver – Crédito: Maureci Junior

Outro importado de forte participação no mercado nacional é o panga vietnamita. O peixe é extraído do Rio Mekong, um dos mais poluídos do mundo, mas apesar da desconfiança em relação a sua origem, é ele o pescado que mais cresce no País.

Entre os motivos para que o peixe estrangeiro esteja tomando as bancas dos nossos supermercados, está o seu baixo preço em relação ao nacional. O quilo do filé de panga pode ser encontrado na rede Zaffari a R$ 9,00, e o da polaca na faixa de R$ 12,00. Enquanto que a tilápia, criada no Brasil, custa em torno de R$ 37,00 o quilo. O preço do linguado, que é típico das águas gaúchas, varia de 42 a 75 reais.

Múltiplas motivações

Com 7,3 mil quilômetros de costa marítima e dono da maior reserva de água doce do planeta, o Brasil importa cerca de 60% dos peixes que consome, segundo cálculo feito a partir de dados de artigo publicado em agosto de 2013 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira, do Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva – ReviZEE e do  Conselho Nacional de Pesca e Aquicultura (Conepe).

Com preço incompatível e produção insuficiente, o produto nacional enfrenta dificuldades para competir no mercado interno.
O baixo custo da mão de obra asiática, tributos reduzidos e as facilidades para a criação de peixes naquele continente são algumas das razões para a crescente presença de pescados da China, não só no Brasil, mas também em alguns países europeus.

Tentando explicar o fenômeno, o professor espanhol José Polanco, em nota publicada no site Aquahoy, chegou a citar a teoria da “assimetria da informação”, que diz que o simples fato de algo ser desconhecido faz com que as pessoas sintam-se atraídas por ele. Mas as explicações não param por ai.

Para Anderson Lorenzetti, gerente da Brascopa, importadora catarinense que traz o panga e a polaca para o mercado brasileiro, a falta de incentivo ao produtor é o que impede que tenhamos peixes nacionais com qualidade e preços atrativos ao consumidor. Sobre os números de importações na empresa, Anderson estima que houve um crescimento aproximado de 20% nos últimos dois anos.

Já o distribuidor porto-alegrense Flávio Rocha, que trabalha há 35 anos no comércio de peixes, vai além: “Creio que a gestão comercial das empresas gaúchas é fraca, e que nossa política de produção e industrialização de pescados ainda não é satisfatória. No entanto, o consumo de peixe estrangeiro, sobretudo os do mar, como o salmão do Chile e a merluza argentina, por exemplo, é algo que faz parte da nossa cultura”.

Gilmar Coelho, superintendente federal do Ministério da Pesca e Aquicultura no Rio Grande do Sul (MPA), enfatiza que a questão econômica tem, também, origens em causas ambientais. Ao apontar a falta de fiscalização como um dos nossos maiores problemas, principalmente em relação à Piracema (período de desova dos peixes), ele admite a enorme dificuldade do pescado brasileiro em disputar espaço no mercado nacional.

Sobre incentivos do governo, o superintendente avalia que seria injusto comparar o Brasil com países do exterior, em função da diferença nos valores da mão de obra. Gilmar também questiona o controle, tanto nas taxas de importação como na entrada e comercialização do produto que vem de fora. Mas vê com otimismo o futuro da piscicultura gaúcha: “nós queremos que as pessoas aprendam e se interessem mais pela criação de peixes, e o crescimento no número de criadores cadastrados mostra que estamos caminhando”.

Sinal vermelho

Situada às margens da Lagoa do Casamento, a orla de Palmares do Sul se caracteriza pela formação de banhadais. Consequentemente, peixes como o jundiá e a traíra encontram lá um habitat favorável ao seu desenvolvimento. Em 1976, Egon Rechenmacher inaugurou a Peixaria Zingara, na beira do Arroio Palmares. Em razão da alta demanda, a empresa já utilizava um equipamento para cortar os peixes – trata-se da primeira máquina de retalhar filés do Rio Grande do Sul.

No entanto, há cerca de dez anos a produção desses pescados já não atende as necessidades das famílias de pescadores e do comércio da região. Assim, em fevereiro deste ano, após trabalhar com pescados durante 38 anos, seu Egon fechou as portas do empreendimento.

“Nos anos 90, só a traíra produzida aqui carregava dezenas de caminhões. Vendíamos semanalmente uma quantidade expressiva para outras regiões do estado. Hoje, somos nós que compramos de fora, pois já está difícil para completar uma carga”, desabafa ele.

Além da concorrência avassaladora dos importados, o comerciante acredita que outros fatores contribuíram para a queda da produtividade. Um exemplo é o decréscimo da população de peixes daquela zona. Ele explica: “grandes banhados viraram lavouras de arroz. Além de transformar os viveiros em plantações, as lavouras puxam a água da lagoa, sugam os alevinos e, depois, espalham o agrotóxico. Isso mata uma quantidade enorme de peixes”.

Responsável pela fiscalização dos crimes ambientais na região, o sargento Julio Medeiros, que comanda o 1º pelotão da Patrulha Ambiental (Patram) de Porto Alegre, diz que a pesca predatória colabora para a extinção de algumas espécies das águas gaúchas. O motivo, segundo o comandante, é que a malha das redes proibidas acaba extraindo muitos peixes de maneira precoce. Contudo, a situação vem se agravando.

Sem peixes, redes de malha permitida (malhões) caem em desuso - Crédito: Maureci Junior
Sem peixes, redes de malha permitida (malhões) caem em desuso – Crédito: Maureci Junior

Só em 2013, a Patrulha Ambiental da BM atendeu 167 ocorrências relacionadas a essa atividade. Quase 14 mil metros de redes e 73 embarcações foram apreendidas, além de 1500 metros de espinhéis e 290 tarrafas.

De acordo com a Patram, as áreas de maior incidência são Itapuã e Palmares do Sul. Quanto ao trabalho de fiscalização, Medeiros admite que o efetivo realmente é limitado: “há 10 anos éramos 60 homens, agora somos apenas 18. E atendemos parte da lagoa, todo o Guaíba e seus afluentes, com um barco inflável de quatro metros de comprimento”.

Mas há um dado preocupante. De acordo com Julio Cesar Rechenmacher, último gerente da Zingara, peixes que antes não tinham valor de mercado e eram ignorados pelos pescadores, como a violinha, atualmente são responsáveis por cerca de 70% do pescado produzido na parte norte da Laguna dos Patos. Detalhe: o preço é alto e sua captura força o uso de material predatório.

Algumas perguntas permanecem sem resposta. E por tudo que foi apurado até aqui, através dos diversos profissionais que conhecem  de perto a realidade da beira dos rios, é possível constatar que a preocupação inicial destes produtores gaúchos, de fato, se justifica. Pois está realmente difícil de sustentar suas famílias com a pesca.

Mas, como declarou o pescador aposentado Jorge da Silva Oliveira, nosso primeiro entrevistado, trocar de profissão, para muitos, não é uma opção. Logo, em meio a esse cenário de transições, há algo que certamente não deve mudar: a esperança de que os pescadores das próximas gerações possam, assim como o seu Jorge, trabalhar por 50 anos, sem precisar descumprir as regras.

3 ideias sobre “Rio Grande do Sul morde a isca do peixe importado”

  1. Matéria perfeita e muito bem apurada! Além de jornalista, sou neta de pescador e fui criada aprendendo sobre a lagoa. Vou mostrar a reportagem para os mais antigos!

  2. Olhando os comentários acima, e as manifestações todas com procedência de pescadores e comerciantes do setor, ainda venho mencionar um dos grandes problemas das extinções de cardumes ao longo de nossa Lagoa dos Patos, que é o desague de grande quantidade de defensivos agrícolas, a partir de São Lourenço do Sul, as espécies ficam AGONIZANDO, e ninguém faz absolutamente nada ! e o principal depredador sem dúvidas é o próprio PESCADOR que se utiliza de equipamentos ultramodernos , SONAR que são capazes de localizar cardumes em uma extensão muito grande, o que tira do pequeno pescador artesanal a condição de disputar com eles além de ficarem quase que sem o peixe mesmo nos locais onde tradicionalmente pescavam. Hoje em dia embarcações de convés fechado estão presentes em quase toda a extensão da Lagoa dos Patos, isto sim, deveria ser proibido tanto as embarcações como os aparelhos que utilizam ! Isto deveria ser utilizado somente em águas oceânicas e ainda bem longe da boca da barra do Rio Grande, dificilmente cardumes sobem a Lagoa ,pois antes disto a depredação acontece !

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