O mercado da ficha rosa

Diversos sites oferecem abertamente o serviço de “ficha rosa” para eventos
Diversos sites oferecem abertamente o serviço de “ficha rosa” para eventos
Em grandes feiras um serviço paralelo floresce: o mercado da ficha rosa. São mulheres e homens que trabalham como recepcionistas em estandes e aceitam fazer programas após o expediente. Nesta reportagem, pessoas envolvidas contam como funciona este trabalho informal e o constrangimento que gera entre a maioria dos profissionais que trabalha em eventos. Pesquisadora avalia as implicações desta prática do ponto de vista das Ciências Sociais. E o Ministério Público do Rio Grande do Sul informa: o agenciamento deste serviço é crime.

Por Liliane Pereira
Jornalismo Econômico / Manhã

No mercado de feiras e eventos existe um jargão, utilizado pelas produtoras, que sinaliza se o profissional contratado aceitará ou não fazer programas sexuais com clientes. É a ‘ficha rosa’ para mulheres e a ‘ficha azul’ para homens. Uma prática conhecida no meio, mas que causa constrangimento aos profissionais. As frases “faço ficha rosa” ou “contrato ficha rosa” são abertamente anunciadas em redes sociais por empresas, que dizem não agenciar os programas.

No entanto, explorando o assunto, que é ainda um tabu na sociedade, verificamos em consulta ao Ministério Público, que se a prostituição do próprio corpo não é crime, o agenciamento de ficha rosa é. A procura por um referencial para melhor compreender o comportamento de quem busca esse tipo de trabalho nos levou a uma pesquisadora que ressaltou a existência de uma dinâmica específica do meio que visa sua manutenção: a discrição.

Para quem trabalha com promoção de eventos um dos maiores inconvenientes é a generalização. Um corpo bem cuidado, cabelos bonitos e roupas que valorizem a beleza são motivos de olhares cheios de preconceito. Isto se deve à prática corriqueira da “ficha rosa” em eventos empresariais que ocorrem em todo o Brasil.

As mulheres que fazem ficha rosa não se consideram prostitutas, conforme afirma uma das garotas com quem conversamos. Elas possuem um ofício, mas por terem uma beleza diferenciada, aceitam trabalhar como acompanhantes para arrecadar uma renda extra.

Feiras e eventos intensificam a criação de vagas temporárias de trabalho em todo o país, além de interferirem no andamento de um importante mercado paralelo: o do sexo. Na  Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer), que ocorre há 37 anos em Esteio (RS), conversamos com recepcionistas e promotoras de eventos sobre a ficha rosa.  Porém, explicam as fontes consultadas, os profissionais da área que aderem à ficha rosa são a minoria. A dificuldade em obter depoimentos é grande quando envolve a exposição pessoal, poucos profissionais aceitam falar abertamente sobre o assunto.

A procura por agências

Para saber como é o funcionamento desse mercado nas agências de eventos conversamos com a produtora Lara Benites. Há mais de dez anos no ramo de eventos, ela já trabalhou em agências diferentes e, embora não tenha aderido à prática da Ficha Rosa e nem feito seu agenciamento, revela que dos seis clientes para os quais produziu trabalhos na Expointer em 2013, três pediram por meninas que fizessem programas.

Lara estima que praticamente a metade dos clientes que contratam as agências de promoção de eventos para as quais ela já trabalhou costuma solicitar esse tipo de serviço. “Normalmente é feita uma seleção para os trabalhos, seja por foto ou pessoalmente. Em geral, após o grupo estar fechado, há clientes que perguntam se há na equipe de trabalho meninas que façam “ficha rosa. Caso não haja, questionam se há a possibilidade de substituí-las por quem faça, revela Lara.

Ela assegura que as agências por onde já passou não agenciam ficha rosa, mas, ressalta, que é muito fácil indicar garotas ou agenciadores no ramo dos eventos. A produtora diz que é normal receber cadastros com a observação: faço ficha rosa. A última agência onde ela trabalhou possui um catálogo com 380 meninas, dessas, 20 declaram abertamente em seus currículos que fazem programa.

Entre os homens esse número é ainda maior. Dos 230 cadastrados no catálogo, ela conta que cerca de 50 informavam que prestavam também esse outro tipo de serviço.

Convite desagradável

Tatiana Hoffmann trabalha há dez anos como promotora de eventos, não faz programas e enfatiza o quanto é desagradável receber esse tipo de convite. Na divulgação de marcas em eventos as promotoras emprestam sua beleza para o produto que estão divulgando e circulam em diversos meios. Segundo ela, devido a essa grande exposição, a área de eventos pode camuflar muito bem este tipo de trabalho de programas e acompanhantes. “Muitas pessoas nos observam e isso facilita para as meninas que trabalham com isso, pois desperta o interesse de possíveis clientes”, relata Tatiana.

No grupo de meninas com quem conversamos durante a Expointer 2014 os relatos são de que muitas garotas aceitam fazer programas desde que seja em outras cidades onde não possam ser reconhecidas. No entanto, em momento algum testemunhamos qualquer convite durante a manhã em que circulamos pelos estandes da exposição em Esteio (RS).

Ficha Azul”

Durante a conversa com a produtora de eventos Lara Benites, ela ressaltou que é muito comum esse trabalho relacionado a homens também. Muitos chamam de “ficha azul”, mas o termo “michê” é mais comum. “”Conheço mais homens que fazem programa do que mulheres. Na maioria das vezes os trabalhos são a pedido de outros homens. Raras vezes vi mulheres solicitarem os serviços de acompanhantes masculinos””, assegura Lara.

Sou ficha rosa”

Marcela, – nome fictício, – trabalha com eventos e como garota de programa há quatro anos. Ela faz os contatos com clientes pessoalmente ou através de agências.  O verão, informa, é uma das épocas de maior fluxo no atendimento devido ao período de férias escolares. “Muitos homens ficam na capital trabalhando enquanto suas famílias estão no litoral. “É quando eles mais procuram pelo meu trabalho””, salienta.

Agenciamento

O agenciamento de meninas adeptas à “ficha rosa” costuma ser feito de várias formas: através da internet, por telefone, por fotografia ou pessoalmente. Juliana –(nome fictício) – o faz através de fotos em catálogos. Ela trabalha como agenciadora e cobra de R$ 150 a R$ 200 mensais de cada menina que deseja ter seu retrato incluso no seu arquivo. Não há comissionamento por programa. Os clientes fazem contato com ela dizendo o que procuram e ela mostra o catálogo. Em geral as contratadas encontram os interessados em locais combinados previamente, mas Juliana possui também alguns quartos disponíveis para aluguel.

Agenciar Ficha Rosa é crime

Por Guilherme Gottardi e Liliane Pereira
Jornalismo Econômico / Manhã

Agenciar “ficha rosa” é considerado crime, esclarece o promotor de justiça João Pedro de Freitas Xavier, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal do Ministério Público do Rio Grande do Sul, em entrevista ao blog de Jornalismo Econômico da UniRitter.

O promotor relatou que existem casos de denúncias relacionados a essa prática, no entanto, ainda que se saiba da existência de casas noturnas ou outros locais onde há prostituição, só há o enquadramento na lei se for comprovado o lucro em cima do trabalho de quem se prostitui ou se a pessoa for coagida a praticar a ação.

No Brasil a prostituição não é crime, desde que a pessoa seja maior de 18 anos e utilize desta prática voluntariamente. Trata-se inclusive de uma atividade reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego. No entanto, não é uma profissão regulamentada.

Explorar a prostituição é considerado crime. De acordo com o promotor João Pedro de Freitas Xavier, desenvolver em alguém a vontade de se prostituir assim como induzir ou facilitar a ação é promover a interpretação que vem ao encontro do artigo 228 do Código Penal brasileiro: “Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual, facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone”.

Conforme os registros do Ministério Público em relação a casos de denúncias de exploração sexual, provar que existe a facilitação ou exploração do trabalho sexual é difícil, visto que, em geral, as pessoas que trabalham nesses locais costumam dizer que estão ali por livre e espontânea vontade. “É muito difícil provar o viés de exploração do proprietário dos locais, pois as próprias pessoas que fazem o programa não denunciam”, informa João Pedro de Freitas Xavier.

Como denunciar

Todos os detalhes são importantes na hora de registrar uma denúncia. Informar o local, a situação e o maior número de detalhes possível é imprescindível. As denúncias referentes à exploração sexual e a facilitação da prostituição podem ser feitas em três locais: 1) através da ouvidoria da Secretaria dos Direitos Humanos pelo disque 100; 2) Em uma Delegacia de Polícia; 3) no Ministério Publico do Rio Grande do Sul.

 A origem do termo “ficha rosa”

Por Liliane Pereira
Jornalismo Econômico / Manhã

Durante todo o processo de pesquisa dessa matéria uma das coisas mais difíceis de esclarecer foi a origem da expressão “ficha rosa”. Na web a única menção encontrada foi a respeito de uma separação de fichas de artistas. As que aceitavam trabalhar como acompanhantes ficavam em uma pasta rosa e as que não faziam esse trabalho, em uma pasta branca. Com o tempo o termo teria se consagrado. No entanto não há nenhuma fonte segura que confirme isso.

Descobrimos uma pesquisadora de uma universidade de São Paulo (SP) que participa de um grupo de pesquisa sobre o mercado do sexo em feiras comerciais. Por motivo de sigilo, ela pediu que seu nome não fosse divulgado.

Ela é doutoranda em Ciências Sociais e contou que a ficha rosa não só atravessa a questão toda relacionada à sua pesquisa como é uma protagonista. Como suas investigações sobre o assunto estão no início conversamos de maneira informal. Ela relatou que a questão intrigante para ela referente à ficha rosa foi a presença do elitismo, da mídia e de personalidades que fazem parte da mídia.

A pesquisa inicial parte do ponto de que entre o trabalho de modelo e a inserção num mercado do sexo há uma linha tênue que instiga uma análise sobre os mecanismos que incitam mulheres, geralmente da classe média, a se inserirem e negociarem. Em feiras comerciais, a presença de modelos femininos é marcante, no entanto, são espaços voltados ao público masculino e de alto padrão socioeconômico.

A pesquisadora ressalta que é preciso se ater não só a questão de gênero envolvida, mas também a outros marcadores sociais como classe social e raça, que têm tanto ou mais presença em determinadas situações. E que diante desses processos de identificação e reconhecimento complexos, promover um julgamento é a última das intenções.

A pesquisa propõe que no lugar do dedo acusatório voltado a pessoa da Ficha Rosa se coloque um olhar panorâmico e atento às representações culturais e históricas às quais a modelo está imersa, incluindo outros agentes envolvidos, como as outras modelos (denominadas de Ficha Branca), a agência, os clientes das agências e os clientes da feira.

Enquanto falávamos sobre uma série de ramificações pertinentes ao assunto a entrevistada dizia que temos que aproveitar esses momentos (a produção da reportagem e da sua pesquisa) para falar sobre esses assuntos porque a prostituição, na sua avaliação, ainda é tabu. Tanto que nesse mercado do sexo de feiras ele é descaradamente camuflado no tal código ficha rosa.

Foi quando ela euforicamente exclamou:  “Olha só, essa é a origem! A origem não é temporal ou local, ela é simbólica. Marca a necessidade das agências de modelos e eventos em não tachar suas meninas de prostituas, de não expô-las ao julgamento moral da sociedade machista, elitista, racista e hipócrita”, teorizou empolgada em conversa pelo Facebook.

Ela acrescentou que como toda atividade relacionada à prostituição, os mercados do sexo existentes em feiras comerciais possuem uma dinâmica específica, ou seja, discreta, que visa sua manutenção. Sendo a prostituição o tabu que é e considerando os fatores jurídicos e morais enredados, parece fácil entender porque nenhuma modelo ou agência quer ter seu nome envolvido com prostituição.

É um assunto delicado e difícil de ser tratado. Mais que uma temporalidade ou lugar específico, a origem do termo Ficha Rosa constitui-se como um marco simbólico cuja função é camuflar qualquer identificação das modelos com garotas de programa.

Essa conversa despretensiosamente permitiu que juntas presumíssemos que diante de todas as incertezas que rondam o uso do termo ficha rosa, encontrar sua origem é trabalho para além do propósito dessa reportagem. Mais que uma temporalidade ou lugar específico, o uso do código parece um marco simbólico para camuflar qualquer identificação das garotas com a esfera da prostituição.

Toda a pesquisa em torno de verificar a influência desse mercado paralelo informal no mercado de trabalho permitiu perceber o quão desconhecido esse assunto é ainda do grande público. E que mesmo sendo minoria, os profissionais que aderem a esse nicho movimentam intensamente o mercado.

O universo rosa

Por Guilherme Gottardi
Jornalismo Econômico / Manhã

Durante nove dias o cenário econômico gaúcho é aquecido com a realização de uma das mais importantes feiras do Sul, a Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer). A exposição é realizada anualmente e está localizada em uma área de 141 hectares, no município de Esteio, Região Metropolitana de Porto Alegre. Segundo a assessoria de imprensa do evento, a exposição gera em torno de oito mil empregos diretos e indiretos.

As empresas que expõem seus produtos e serviços contratam recepcionistas para ficar em frente aos estandes. Durante o evento, algumas são selecionadas sob a condição de “esticar” o seu horário de trabalho para ficar à disposição como acompanhante após o expediente. Quem aceita esse trabalho se enquadra no termo “ficha rosa”. Vista como cilada pelos free lancers, alguns relatam que há um número elevado de agências que tratam como prioridade esse tipo de “prestação de serviços”.

 A discriminação

Caminhando pela Expointer se percebe que realmente a beleza é um dos critérios para trabalhar ali. Mulheres e homens que chamam a atenção esteticamente, transformando o cenário dos estandes em verdadeiras passarelas.

O assédio é permanente. “”Nosso cachê gira em torno de R$150,00 por dia, trabalhando das 8h às 18h, com intervalos restritos, daí chega um cara e te oferece R$ 1.000,00 para acompanhá-lo após o expediente. Eu não aceito, mas não julgo quem faz””, afirmou a divulgadora Kátia Rivatto.

Modelos e profissionais que trabalham em eventos reclamam não apenas do assédio, mas também da discriminação. “”As pessoas confundem nosso trabalho, ficamos oito horas em pé prestando serviços para o contratante e temos que saber lidar com o assédio””, disse a modelo Bruna Cornelius, que trabalhou no espaço de uma empresa durante a Expointer. “

Muitas vezes é até pior, quando algumas esposas estão junto ao marido e nos destratam por estarmos lhe dando atenção”, ressaltou a recepcionista Caroline Vessner.

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