O negócio milionário dos vendedores de ilusão

Resultados da jogatina estampam fachada de uma tabacaria na Região Metropolitana de Porto Alegre – Crédito: Anderson Aires
Cinco sequências de números, cada uma com quatro dígitos. Apenas cinco resultados que podem conter números na casa das centenas, dezenas ou milhares, que podem mudar totalmente o cotidiano das pessoas. Apostadores ansiosos e atrelados aos seus “rituais místicos”, de sorte, aguardam, apreensivos, a dois resultados. Um às 14h, outro às 18h. Você já deve estar sabendo do que estamos falando. O jogo do bicho, atividade contraventora, que existe há mais de 120 anos no Brasil, movimentando milhões de reais e que corrompe policiais, influencia diretamente na política e dá dor de cabeça nos principais órgãos de segurança pública.

Por Anderson Aires, Anderson Mello e Leandro Cougo
Jornalismo Econômico / Manhã

O Ministério Público do Rio Grande do Sul promoveu durante 11 anos (2002 – 2013) uma força-tarefa contra jogos ilícitos no Estado. Durante esse período ela desativou 21 bancas de jogo do bicho, apreendendo aproximadamente R$ 5 milhões. Mas como uma atividade como esta, que estende seus tentáculos e financia diversos crimes, consegue sobreviver tanto tempo de geração em geração?

O jogo do bicho movimenta muito dinheiro em um curto espaço de tempo. “Uma vez nós estouramos uma banca de jogo do bicho e apreendemos cerca de R$ 200 mil em dinheiro vivo, fora cheques”, ressalta o coordenador da extinta força-tarefa, o promotor de justiça José Francisco Seabra Mendes Júnior, em entrevista exclusiva ao Blog de Jornalismo Econômico da UniRitter.

Uma das principais dificuldades em enfrentar essa atividade criminosa é a forma como a sociedade a encara. Devido à fama de boa praça dos banqueiros, chefões donos das bancas, a atividade de certa forma virou uma espécie de contravenção romântica, onde o contraventor não está fazendo nada demais. Afinal, é só um joguinho. “As pessoas não veem mal por trás do jogo do bicho. Ele é socialmente aceito”, lamenta o promotor.

A  Lei n.º 12.683/12 veio como uma nova arma para o combate ao jogo do bicho e às máquinas caça-níqueis. A partir dessa lei estas atividades podem ser consideradas crimes e não só mais uma contravenção, tendo assim punições mais rígidas, e se encaixando na lista dos crimes de lavagem de dinheiro.  A reclusão por tal prática não mudou, vai de três a dez anos.  Mas as multas tiveram o valor aumentado em 100 vezes, podendo chegar aos R$ 200 milhões.

No início do mês de novembro de 2014, a operação Trevo da Polícia Federal desarticulou uma quadrilha que agia em 13 estados da federação, entre eles o Rio Grande do Sul, movimentando cerca de R$ 1 bilhão através de jogo do bicho, exploração de máquinas caça-níqueis e emissão de bilhetes de loterias disfarçados de títulos de capitalização.

O promotor José Francisco Seabra Mendes Júnior liderou uma força-tarefa contra jogos ilícitos durante 11 anos no Estado – Crédito: Anderson Aires

Em um cálculo realizado pelo jornal Zero Hora, em 2012, apenas no Estado do Rio Grande do Sul a atividade fatura cerca de R$ 200 milhões por ano, livre de impostos. Em um cruzamento de dados feito pela publicação foi estimado que o jogo do bicho arrecada cerca de R$ 500 por minuto.

Vendedores de ilusão

A compulsão gerada pela jogatina chamou muito a atenção do promotor José Seabra, durante os 11 anos de funcionamento da Força Tarefa contra Jogos Ilícitos, promovida pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. O jogador nunca se sacia com o prêmio recebido. Ele sempre quer ganhar mais, pois acha que a sorte está do seu lado.  “A tendência é o jogador só perder dinheiro, porque ele ganhando ou não vai continuar gastando, na insistência em ganhar”, constata o promotor.

Um arrecadador do jogo do bicho que atua na região metropolitana de Porto Alegre deu uma entrevista para a equipe do blog de Jornalismo Econômico da UniRitter, mas preferiu não ser identificado. Ele descreve o processo que leva o jogador ao vício. “A gente não vende jogo do bicho. A gente vende ilusão”, esclarece o coletor.

O arrecadador do jogo do bicho exibe um bilhete de aposta – Crédito: Anderson Aires

Segundo ele o apostador está apto a pensar que “hoje vai dar”, pois a possibilidade de mudar sua situação financeira em apenas alguns minutos é tentadora. “O cara já pensa pô, joguei dez pila e vou ganhar cinco mil. Psicologicamente o cara já se ilude”, explica.

 Mercado de trabalho paralelo

Segundo dados de uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) realizada em outubro deste ano (2014), cerca de 6,8% da população brasileira não possui emprego formal. Mas como elas alimentam suas famílias?  Um dos principais motivos utilizados em defesa do jogo do bicho é que ele gera empregos. Muitos empregos. “Ele de certa forma assegura empregos direta e indiretamente. Ele fomenta o mercado de trabalho também”, informa o promotor Seabra.

Entre as funções desempenhadas na hierarquia do jogo do bicho existem gerentes, subgerentes, supervisores e arrecadadores. Muitos desses trabalhadores ilegais garantem todo o sustento de suas famílias em cima da contravenção. É o caso do arrecadador entrevistado por nós. “Tenho meu carro, tenho minha casa, tenho minhas coisas, tudo nesses 30 anos, graças ao jogo do bicho”, exalta.

O número de famílias que são sustentadas através da atividade ilegal é incalculável, visto que a atividade está muitas vezes interligada a outras atividades criminosas. “As pessoas que estão no meio disso acabam se envolvendo com outras atividades, como por exemplo o narcotráfico”, alerta o promotor. Conforme jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST), não há a possibilidade de estabelecer vínculo empregatício do apontador de jogo do bicho com a banca (que funcionaria como empresa), ou seja, não é permitido assinar a carteira ou contribuir para o INSS com essa função.

Contravenção que leva à corrupção

Segundo o promotor José Francisco Seabra o bicho é uma das principais causas de corrupção policial no Rio Grande do Sul. Os banqueiros subornam a segurança pública para poder agir normalmente e sem incômodos em suas regiões. “Junto com narcotráfico e roubo de carro, o jogo do bicho é um dos três segmentos que mais fomentam corrupção”, informa Seabra.

Segundo o arrecadador, que atua na região metropolitana de Porto Alegre, se o banqueiro não pagar a propina determinada pela polícia, é impossível continuar trabalhando.  “Todo o dia primeiro tem que vir aqui e dar o valor deles. Se não der, eles pegam todos os arrecadadores nas ruas”, relata.

O arrecadador ainda questiona se o jogo do bicho de certa forma não é taxado, pagando uma espécie de imposto: “O jogo do bicho paga imposto. Imposto pra polícia”.

A matéria que abalou a contravenção no Rio Grande do Sul

Carlos Wagner é um dos jornalistas brasileiros mais premiados da história. Crédito: Anderson Aires
Carlos Wagner é um dos jornalistas brasileiros mais premiados da história – Crédito: Anderson Aires

 Em 1993 uma reportagem no jornal Zero Hora abalou a opinião pública e causou desconforto nos órgãos de segurança pública. Um dos repórteres mais experientes do periódico resolveu tocar em uma ferida que muitos fingiam não existir. Carlos Wagner elaborou uma matéria, com riquíssimos detalhes, que denunciava a máfia do jogo do bicho, principal ato de contravenção no Estado e no Brasil. O jornalista desenvolveu um material investigativo que rastreou todos os chefões da jogatina e por onde seus tentáculos se articulavam.

Wagner precisou de cerca de sete meses para apurar todo o material que viria a se tornar uma reportagem especial dividida em quatro partes, no decorrer de uma semana de junho de 1993. A reportagem causou “comoção” no Estado, pois ninguém havia tratado do tema com toda esse profundidade e interpretação. A reportagem conseguiu tirar a alcunha de inocência da atividade. “Eu não fiz uma matéria contra o jogo do bicho. Fiz uma matéria contra gângsteres que mandavam matar, que mandavam cometer incêndios e tinham um Estado paralelo”, relembra Carlos Wagner em entrevista concedida ao Blog de Jornalismo Econômico da UniRitter.

Reportagem de Carlos Wagner de 1993 – Crédito: Acervo ZH
Reportagem de Carlos Wagner de 1993 – Crédito: Acervo do jornal Zero Hora

A matéria ligou todos os pontos soltos em relação à jogatina. Wagner conseguiu rastrear todos os banqueiros do Estado e mostrou como e onde eles agiam e todo seu aparato, que movimentava milhões em dinheiro. O material produzido por Wagner é um importante registro histórico de como o bom jornalismo pode pautar e ajudar a opinião pública, desde que seja feito com engajamento, profundidade e extrema apuração. Quesitos básicos do jornalismo.

Como tudo começou

O jogo surgiu no Rio de Janeiro, no final do século XIX, pelo Barão de Drummond. Quando o diretor do primeiro jardim zoológico da cidade, localizado no bairro Vila Isabel, viu a necessidade de capitalizar recursos para o parque. Quando comprasse o bilhete de entrada, a pessoa ganhava um cupom que tinha a imagem de um dos 25 bichos do zoo.

O diretor então escolhia um bicho por dia e deixava a imagem dele exposta na entrada do pátio, em um quadro coberto. A aposta custava mil réis e o prêmio era 20 vezes maior. O jogo foi proibido após cinco anos, mas já havia se espalhado pela capital carioca que até hoje é o principal centro de jogo do bicho no Brasil.

Como funciona a jogatina?

Aposta

Os jogadores fazem suas apostas em bares, mercearias, tabacarias e até mesmo em lotéricas. O apostador tem que escolher uma dezena, centena ou milhar. Ele pode apostar apenas no primeiro prêmio número sorteado ou do primeiro ao quinto.

Coleta

No fim de cada ciclo de jogo, o das 14h e o das 18h, os arrecadadores vão até os estabelecimentos que fazem as apostas e recolhem os jogos e os valores investidos neles.

Sorteio

O sorteio não é feito em local público, por razões óbvias, o método de sorteio lembra o de uma loteria convencional. O sorteio é feito em uma sede no Rio de Janeiro e é disponibilizado para todo o país.

Contagem

Funcionários da banca conferem as apostas e separam os valores dos bilhetes premiados. No dia seguinte, ou até no mesmo dia.

Premiação

O prêmio é entregue em dinheiro na banca onde o apostador fez sua fezinha.

Um problema de saúde pública

Em um antigo prédio da Cruz Vermelha encontramos uma sala com diferentes pessoas, diversas histórias e o mesmo problema: o vício em jogos. Além de doer no bolso das pessoas, o jogo do bicho, assim como todos os jogos de azar, deixa diversas chagas nas famílias e na saúde mental dos apostadores.

A reportagem visitou o Grupo Esperança de Jogadores Anônimos de Porto Alegre (JA) e as frases que mais ouvimos naquele local foram: “Eu não tenho controle sobre o jogo”, “eu pensei em suicídio” e “eu apostava tudo o que eu tinha”.

A coordenadora da reunião do JA, único no Rio Grande do Sul, Elizabeth, revela que a maioria dos participantes do grupo tem mais de 35 anos e são viciados nas máquinas caça-níqueis. “Aqui é, normalmente, a última alternativa. Chegam aqui já no fundo do poço”, lamenta.

Para ela, é necessário que os governos olhem e tratem os jogadores compulsivos como um problema de saúde pública. O grupo não possui nenhum apoio do governo, ele existe desde 2001 e sobrevive com doações dos próprios frequentadores.

 

O Jogadores Anônimos recebe cerca de 40 participantes rotativos. Crédito: Anderson Raí.
O Jogadores Anônimos (JA) recebe cerca de 40 participantes rotativos – Crédito: Anderson Raí.

O grupo não tem líderes, os coordenadores são escolhidos por sessões, vai rotacionando. Elizabeth, coordenadora da sessão visitada, acredita na troca mútua de experiências para enfrentar o vício. “A reunião consiste em depoimentos, eu dou meu depoimento e ajudo alguém, alguém que dá o seu depoimento também me ajuda. A gente lembra daquelas coisas que fez e é uma autoajuda. Bem parecido com os Alcoólicos Anônimos, foi inclusive projetado em cima dele”, relata.

O jogador compulsivo Moyses conta que hoje em dia não é necessário ter dinheiro em mão nas casas de jogos.  “É barbada, eles vêm com as máquinas pra que tu tires o dinheiro, tu nem precisa mais se levantar. Eu tirava dinheiro de tudo que é coisa. De pensão alimentícia, ou seja, eu tirava o dinheiro do meu filho para ir lá jogar. Eu atrasava dois meses e quando faltava uns dez dias para dar problema, eu dava um jeito e conseguia pagar”, confessa.

Para Moyses, o JA serve como um abrigo para quem busca sair do vício e retomar a sua antiga vida, sendo melhor até do que uma psicóloga, é um lugar onde as pessoas o entendem. Mas o mais primordial de tudo é a possibilidade de se abrir com pessoas que passaram pelo mesmo tipo de experiência.

Porta de entrada

O jogo do bicho foi a porta de entrada ao mundo da jogatina para Jair. Ele teve seu primeiro contato quando morava no interior do estado e após receber um convite de um amigo chegou a trabalhar como apontador. “Toda a comissão que eu recebia gastava no jogo”, recorda.

Jair então, ao vir morar na capital gaúcha, conheceu os “computadores”, com os quais acabou se envolvendo ainda mais. “Eu ficava das 14h até às 5h da manhã jogando e saia sem nenhum real no bolso. Eu não tenho controle sobre isso, nunca tive”, revela. Ele está afastado das máquinas a mais de um ano.

Para muitos frequentadores do Grupo Esperança o jogo do bicho foi o início do vicio na jogatina. Crédito: Anderson Raí
Para muitos frequentadores do Grupo Esperança o jogo do bicho foi o início do vicio na jogatina – Crédito: Anderson Raí

O promotor Seabra alerta que o jogo mexe com o lúdico das pessoas, o que facilita muito o vício. “É um drama que não respeita sexo, idade ou classe social”, avisa. Segundo ele, essa é uma das principais preocupações para a legalização do jogo, já que ele pode atingir a todos, o que também dificulta um possível tratamento. “Nós temos uma cifra, chamada de cifra negra. É aquela que tu desconheces. No caso é o número de pessoas que são compulsivas no jogo”, explica.

*A pedido do Grupo Esperança não divulgamos o sobrenome dos entrevistados.

O tabu da legalização

Legalizar o jogo poderia ser uma solução, pois com isso o governo conseguiria arrecadar impostos sob a atividade, bem como legalizar o trabalho de milhares de pessoas que vivem dele. O promotor José Francisco Seabra Mendes Júnior discorda e considera uma temeridade tirá-lo da irregularidade.

Ele acredita que caso isso ocorra se tornará um problema ainda maior para a sociedade. “Será um estímulo para aqueles que já estão propícios a isso”, adverte. Para ele seria necessário realizar um estudo e consultar se teria como fiscalizar todo o segmento, antes de se tomar qualquer medida.

Ainda conforme Mendes Júnior, é necessário questionar o interesse dos banqueiros em tornar o jogo legal, já que com isso eles teriam perdas significativas de seus lucros. “O único imposto que eles pagam é a propina. Eles vão gastar muito mais para se adequar a realidade. Recolhendo impostos, previdência social para os funcionários”, frisa.

O assessor jurídico Felipe Siqueira Moreira, que também participou da força-tarefa contra jogos ilícitos, tem uma outra percepção sobre o assunto, e acredita que seria sim viável tirar o jogo da ilicitude. “O próprio governo poderia colocar, por meio da Caixa Federal, explorando isso. Seria mais uma loteria. Os sorteios acontecem às 13h, 18h e 21h. A Caixa poderia explorar isso tranquilamente”, opina.

A última tentativa de legalizar o jogo do bicho e o bingo foi por meio do projeto do Senador Ciro Nogueira (PP-PI), em julho deste ano. O senador alegou que a proibição do jogo em território nacional nunca foi seguida e que o governo federal perde de arrecadar cerca de 15 bilhões/ano em impostos. Além disso, ele argumenta que muitos empregos deixam de ser gerados no Brasil.

O jogo do bicho passou de apenas um jogo de azar, simples e inocente, para um dos principais financiadores das atividades criminosas do país, estendendo sua influência em cima até da política nacional movimentando milhões de reais. Riqueza de poucos, desgraça de muitos.

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