Praça da Alfândega: música como sustento

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Charles cantando na Praça da Alfândega – Crédito: arquivo pessoal.

Natural de Canguçu, cidadezinha no sul do estado, Charles Busker mostra seu talento nas ruas da Capital gaúcha. Cantor que vive da música, em 2011 começou a venda de seus Cd’s por R$ 10 cada um.

Por Juliana Bernardon
Jornalismo Econômico / Noite

Pessoas caminhando de um lado para o outro, umas com tanta pressa que nem olham o que está acontecendo em sua volta, outras analisam tudo. Algumas atrasadas para um compromisso, outras indo para o trabalho e algumas simplesmente passeando. Sol, chuva, frio e calor, não importa isso se repete todos os dias no centro de Porto Alegre. No meio de tudo isso uma praça, a Praça da Alfândega, que virou palco para o rock’n’roll e o responsável pelo show é o cantor Charles Busker. Praticamente todos os dias tocando e cantando na praça, no início conseguia em torno de R$ 400 por semana, mas hoje é diferente, ele e sua esposa, Letícia Busker, 27, vivem da música e criam sua filha, Scarlett, de sete meses.

Criado na zona rural, brincando no meio do mato, indo para a escola de bicicleta e vivendo solto o dia inteiro, foi assim a infância de Charles, 34. Nos dias chuvosos em que podia ficar em casa, sua diversão era ler os livros e revistas do pai, jogar vídeo game e ouvir música: todos os discos e fitas que apareciam por lá. Desde pequeno sempre gostou de fazer imitações de personagens de desenhos, de programas humorísticos e até de seus próprios parentes. Era o famoso gordinho, baixinho e piadista no qual aprendeu com seu pai.

Durante a escola, na 6ª série, sua professora começou a desenvolver atividades artísticas, nas quais Charles ficava bem à vontade e se dava bem. Podia soltar o seu lado mais louco, já que não sabia jogar futebol com os amigos.  As atividades foram crescendo e juntamente com dois amigos e seu irmão mais velho formaram um grupo de teatro, o Cascudo & CIA. Era algo bem amador, no estilo de Os Trapalhões (programa humorístico brasileiro, 1977 – 1993), mas que integrava elementos da cultural regional. Durante três anos o grupo percorreu diversas escolas e realizaram eventos por toda zona sul do estado, até que surgiu uma nova ideia: um programa de rádio.

Com apenas 16 anos, Charles não entendia muito o que estava acontecendo na sua vida: “eu, sinceramente, não tinha a mínima noção do que estava fazendo. Era adolescente e essa falta de noção me libertava para fazer as coisas absurdas”. Os quatro amigos percorriam o comércio local da cidade em busca de patrocínio com a proposta de um programa de humor em uma rádio AM, que até hoje, Charles diz não saber como deu certo.

O programa era realizado nos finais de semanas e por pouco mais de um ano a proposta deu super certo para os padrões da época. Porém, neste meio tempo o grupo de teatro ainda funcionava e sempre surgiam novas ideias: shows com um circo mambembe, roupas de Bananas de Pijama, que na época fazia sucesso, para shows de recriação, entre outras. Todas essas ideias e realizações do grupo de maneira altamente experimental e sem praticamente nenhum apoio deram certo apenas com um bando de guri da roça sem dinheiro, mas com muitas ideias e tempo de sobra, como diz Charles.

O futuro músico já cursava o 2º grau fazendo um curso técnico em eletrônica. Porém, apesar de adorar essa área, não podia negar que algo nele o empurrava para o lado artístico. Com 18 anos, Charles ainda não tinha pretensão de ser músico, dizia cantar mal e todos os seus amigos que tocavam já estudavam a música há muito tempo. Até que um dia seu irmão apareceu com um violão em casa. De início não foi grande coisa, Charles não deu muita bola, se dizia velho demais para aprender, mas mesmo assim, seu irmão o ensinou alguns acordes e pegou algumas músicas do Raul Seixas para começar a tocar. “Na verdade, fiz muito barulho horrível antes de sair uma música que pudesse ser reconhecida. Meus pais tiveram muito saco para me aguentar tocando Medo da Chuva por muitos dias”, relembra.

Por volta do ano de 2000, Charles se mudou para Porto Alegre, onde dividia um apartamento com mais seis colegas e trabalhava em uma empresa de geradores na Zona Norte. Sempre que podia treinar com seu violão, ele não cogitava. Nos finais de semana em que ficava sozinho em casa, aproveitada o tempo para soltar o barulho e também no seu horário de almoço durante a semana no emprego. Certa vez, seus colegas vendo aquilo, o convidaram para ir ao ensaio de uma banda na qual eles tinham. Charles foi, ensaiou e entrou para a BR6. Banda que tocava pop rock nacional e internacional em alguns bares e festas da empresa.

O interesse pela música só foi aumentando e dúvidas sobre sua vida e sobre seu futuro começaram a lhe atormentar: ao mesmo tempo em que seu sustento vinha da área técnica, sua alegria vinha da arte. Charles frequentou alguns semestres de Ciências da Computação na Ulbra, mas achava que poderia virar um super nerd se continuasse lá, paralelamente a isso estava dando aulas de inglês em um curso no centro de Porto Alegre e ganhava uma média de R$80 a R$ 100 semanal. E como ele aprendeu inglês? Jogando vídeo game e lendo os livros nos dias de chuva.

Entre uma banda e outra, pagando para tocar em botecos e festivais, um conhecido que era baixista o convidou para fazer parte de uma banda, onde já existia até shows marcados. Tocava guitarra e cantava. Em pouco tempo deram início as composições e o som psicodélico que faziam começou a se tornar o estilo de vida de Charles. Em 2005, formou a banda NonSense, com sucesso, dois anos depois foram tocar em um festival organizado pela prefeitura de Canguçu, sua cidade natal, em que Charles não poderia ter ficado mais feliz: “Era uma realização para mim, voltar a cidade fazendo o som mais foda do universo”, admite. No fim das contas, a banda ganhou dinheiro para alugar um carro para a viagem, não ganhou nenhuma menção honrosa, mas uma compensação veio. Na viagem de volta, em um domingo à noite, Charles decidiu que iria largar o trabalho e viveria de música.

Trabalhava no controle de qualidade da mesma empresa em que conheceu os integrantes da sua primeira banda, porém aquele ali não era mais o seu mundo. Mesmo ganhando um salário razoável (R$ 2000) para a época, resolver problemas que não o interessavam mais já não estava lhe fazendo bem e tiravam a sua paciência. Então, uma segunda-feira de agosto de 2008, após um show da NonSense em Canguçu, Charles anunciou que largaria o emprego, “me chamaram de louco e tudo mais, mas naquele momento tive um alívio de um sentimento de liberdade muito grande”, e recorda: “Tive a certeza de que qualquer coisa que eu decidisse fazer, iria rolar”.

Tentando achar um caminho remunerado para a arte, Charles estava cursando Publicidade e Propaganda na Unisinos, mas teve que largar por não ter renda nenhuma para se sustentar, quem diria pagar uma faculdade. Pegou o dinheiro da recisão que ganhou da antiga empresa e sem pensar no seu futuro incerto, comprou uma guitarra nova. O dinheiro foi acabando e os bicos como professor de inglês e de informática não iam bem. Dividia apartamento com um ex-colega de serviço no bairro Humaitá, até que em uma sexta-feira viu que tudo que tinha em seu bolso eram apenas R$ 5. Na falta de outras formas de ganhar dinheiro, Charles pegou seu chapéu, seu violão e foi para a Praça da Alfândega tocar uns rock das antigas. “As músicas que cresci ouvindo nas tardes chuvosas de Canguçu agora estavam se transformando em moedas no centro da capital”, lembra.

Desde então começou a tocar praticamente todos os dias na Praça. Foi aumentando o seu repertório e aperfeiçoando as técnicas. Tudo o que fazia era relacionado com a música, porém não tinha muita pretensão de viver tocando, o dinheiro era curto, ganhava em média de R$ 400 por semana. Nesse tempo pensou em arrumar algum outro tipo de serviço, pensou em ser até empacotador de supermercado quando uma oportunidade surgiu. Enquanto tocava na Praça, neste mesmo ano de 2008, foi convidado para se apresentar em um aniversário na sede de um moto clube, próximo de onde morava. A sede Mutantes MC era um bar totalmente underground, “eu passava ali na frente e achava demais aquela gurizada cabeluda com umas motos fodas mandando a sociedade se fuder. Toquei lá e foi fantástico”, diz.

Aos poucos, Charles começou há conhecer um pouco mais sobre esse mundo e a fazer parte dos eventos. Mas nem tudo são flores na vida de quem enfrenta o sistema e larga tudo, pegou uma gripe, tossiu por uma semana e ficou sem voz, o que fez com que ele tivesse que desmarcar diversas apresentações. Quando retornou as ruas de Porto Alegre, conheceu uma garota guitarrista que como ele mesmo diz é simplesmente o amor da sua vida: “nos conhecemos por causa da música, vivemos de música e nossa filha é a nossa mais bela composição”.

Charles e sua esposa, Letícia já passaram por vários problemas assim como qualquer pessoa, mas lembra de que quando nós fazemos aquilo que amamos tudo fica mais doce. Atualmente, além dela tocar, também é produtora do marido e cuida de tudo nos bastidores para que o rock’n’rollpossa acontecer naturalmente. Charles conta que a vida de músico independente, responsável e pai de família é mais difícil do que muita gente pensa. São dias dormindo pouco, se alimentando mal e viajando para tudo que é lugar, ficando longe de casa e até com a possibilidade do carro estragando no meio da estrada, e termina “além de tudo isso ouvimos bêbados pedindo “Toca Raul”, pessoas achando que o cara é vagabundo e alguns parentes e amigos reclamando que a gente não participa dos eventos de família. Pô, gurizada, meu domingo é na segunda”.

Em 2011 começou a venda de seus Cd’s que custam R$10 cada um. Até hoje são três, o Volume 1 (gravado em 2011), o Volume 2 (gravado em 2012) e o Classic Rock (gravado em 2013). Apesar de tudo que já passou, da falta de dinheiro e das indecisões da vida, Charles deixa uma mensagem: “toda profissão tem seus percalços, porém eu tenho uma vantagem, toda vez que tenho que trabalhar acabo me divertindo”.

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