Nem Uber, nem táxi: só Jesus, mesmo

Carros do Jesus
Jesus com os dois carros que usa para trabalhar atualmente, Spin e Siena- Crédito: Arquivo pessoal.

De taxista e PM ao homem cujo celular mais toca na noite porto alegrense, Jorge Jesus Gomes possui uma exclusividade que nem o Uber conseguiu firmar, com clientes VIPs e um sorriso que nunca sai do rosto.

Por Rafaela Amaral
Jornalismo Econômico / Noite

Jorge Jesus Gomes, 59 anos, é a prova de que nada na vida acontece por acaso. Em uma época que não existia celular, muito menos aplicativos que chamam táxi em três minutos, Jesus não fez nada de diferente, virou mais um motorista de táxi como muitos outros, o que, segundo ele, era a opção mais simples, por ser uma profissão que não exigia tanto como hoje em dia.

Em uma padaria na frente de sua casa, no bairro Cidade Baixa, ele conta que, aos 23 anos, trabalhava durante o dia, mas sempre nutrindo um carinho especial pelas madrugadas porto-alegrenses. Os anos se passaram, e o amor pela noite passou a fazer parte da vida do taxista. Conhecido entre os jovens, a rádio táxi recebia ligações de clientes que queriam que ele, e apenas ele, os buscasse. Nascia aí a relação diferenciada que Jesus tem hoje com seus clientes, conhecidos também como deusas e musos. Trabalhou como policial, dividindo a vida de taxista com a de PM por nove anos. Mas a noite falou mais alto, assim como a relação já muito bem construída com a clientela.

Deixar de ser taxista não foi um plano, foi o resultado de uma circunstância imposta pelo destino. Tudo começou quando descobriu um problema nos pulmões. Ele não conseguia soprar o bafômetro, e em abril de 2013 apreenderam seu táxi, na véspera de feriado de páscoa. “Eu tinha que trabalhar no feriadão. Eles recolheram meu táxi, minha carteira e meu carteirão, e eu pensei: tô ralado”. Durante aquela mesma noite, fez exames para provar que não tinha bebido. Na segunda-feira, a carteira de motorista foi devolvida, mas o carteirão levou quase três meses. Este foi o início de algo que ele nunca imaginou fazer.

Após pedir dois chás, uma para ele e um para mim, e um pedaço gigante de torta, que comemos juntos, Jesus começa a retomar tudo o que deu início a sua nova fase. “As gurias me ligavam e eu dizia: neguinha, tô sem táxi, não posso trabalhar, só tenho meu Uno aqui, quer que eu te leve de uno? E elas respondiam: neguinho, vem logo, tô te esperando”. Passou, então, a atender os clientes de sempre com seu Uno, afastando-se aos poucos do táxi. Hoje, ele que chama suas clientes carinhosamente de deusas, neguinhas, divos e musos, está no caminho para se regularizar com empresa de aluguel de veículos com passageiro, deixando para trás o rótulo de taxista que o tornou conhecido na noite.

Repórter e Jesus
Jesus e Rafaela, uma de suas clientes e repórter do Blog de Jornalismo Econômico- Crédito: Arquivo pessoal.

Após problemas com o chefe, e a vontade de deixar o táxi de vez, decidiu dedicar-se cem por cento ao novo negócio, que já tinha conquistado a ele e seus clientes. Passou, então, o transporte de passageiros com o Siena que antes usava como táxi, adquirindo futuramente uma Spin. Hoje, o lucro de seu trabalho dobrou, pois nos fins de semana os dois carros vão às ruas levar os “clientes exclusivos” a festas em todos os cantos da cidade.

Exclusivos, pois, segundo Jesus, hoje ele transporta apenas quem confia, e não gosta de ser comparado com o Uber, empresa multinacional de transporte urbano, conhecido pelo serviço de carona remunerada, diferente dos táxis. “O Uber, assim como o táxi, leva desconhecidos. Eu só carrego quem eu conheço. Na dúvida, eu pergunto quem deu meu número, de onde é a pessoa que indicou, quem é ela”. Ele diz fazer todo um estudo de quem o procura. “Eu te cuido e tu me cuida, neguinha, é assim que é”, conta. “É uma troca, um cuidado diferenciado, é eu e tu na noite”. Ele afirma não ter apenas contatos, mas ter de seus clientes um carinho que não tem preço. Neste momento, ele olha para mim e pergunta “neguinha, vamos comer outro pedaço de bolo?”, neguei, a enorme torta já tinha sido o bastante.

O trabalho que Jesus realiza hoje é o resultado de algo que foi acontecendo aos poucos. “Vocês me dizem que eu sou legal, mas eu não sou, legal são vocês que confiam em mim, que me esperam buscar vocês, que pagam o meu preço, esse carinho não tem nada igual”, revela ele, emocionado.

A designer de 22 anos Barbara Sessim conhece Jesus desde a época do colégio, quando ele ainda tinha o táxi. “Ele é muito paizão da galera, eu considero ele muito meu pai, já me salvou muito na balada”, conta a jovem, que diz em vários momentos de sua vida ter contado com ele. “Virou um porto seguro pra mim, um pai mesmo. Todas as vezes que eu precisei, não só pra me resgatar na balada, mas durante o dia, quando eu precisei conversar sobre família, ele sempre teve muito presente”, revela. Segundo ela, Jesus é uma pessoa sempre disposta a ajudar. “Teve uma vez que eu liguei pra ele de manhã só pra perguntar como se fazia feijão sem botar fogo na casa”, entrega ela, que diz nunca ter feito feijão antes, e ele foi a opção mais próxima e rápida para perguntar.

Cliente e Jesus
A designer Barbara Sessim tem Jesus como um porto seguro, um pai- Crédito: Arquivo pessoal.

Ela relembra da época em que ele estava sem o táxi, e que foi uma das incentivadoras para que ele começasse a trabalhar com o Uno. “Eu precisava muito ir encontrar minha chefe da época num coquetel, e ele me disse que só tinha o Uno. Eu disse: vem, quero que tu me leve de qualquer jeito”, conta.

Barbara diz que nessa época ele começou a melhorar muito seu trabalho, selecionando mais quem atendia: “Hoje ele só leva quem é de fé e tá com ele há um bom tempo, e a gente tem muita confiança nele, ele é uma pessoa muito especial”.

Sobre prejuízos, ele diz não precisar lidar com pessoas que não pagam. “Quase nunca aconteceu. Pensa, uma pessoa vai no máximo me dever 50 reais, e pra se queimar comigo por 50 reais, tem que ser muito burra”, brinca.

Rindo muito, ele relembra cenas engraçadas que já viveu na noite como, por exemplo, que já segurou cabelo de muita menina bêbada e que já carregou gente dormindo no carro. “Teve uma menina que fui buscar muito bêbada, as amigas me entregaram ela e eu levei num posto, dei uma coca, fiz umas quatro corridas com ela dormindo e ela nem viu” recorda. “Teve outra que eu peguei, levei num posto e dei dois enroladinhos de calabresa, e ela nega até hoje que comeu, pois é vegetariana” (risos).

Saímos da padaria e começamos a caminhar pelo bairro, marcamos uma caminhada no Gasômetro qualquer dia e ele foi comigo até minha casa, buscar 13 reais que eu estava devendo da semana anterior.

5 ideias sobre “Nem Uber, nem táxi: só Jesus, mesmo”

  1. MEU Tchucooo , acho que ja fechou dez aninhos de parceria amizade e muitas indiadas que ele ja me levou e o que é melhor me esperou voltar antes de ir embora pra casa , ele é demais , sabia que eu era novinha nas baladas de Poa e enquanto eu não saísse da festa ele não dormia! Meu amigo que eu amo e ele sabe que me mata de orgulho.
    Desejo só a prosperidade pra ele sempre , e sei que ele é rodeado de amor e de pessoas maravilhosas , porque é exatamente o que ele merece , de vez enquando brigamos porque ninguem é fácil não haha (genios fortes , mas faz parte) mas confio nele e nao troco por taxista nenhum!! #SuperIndico

  2. Jesus ,ou Jésus como chamamos sempre, levou meus filhos e sobrinhas por toda a adolescência. Seu nome diz tudo , santa pessoa. Grande profissional e baita ser humano. Desejo todo sucesso do fundo do meu coração.

  3. Tchuco é diferenciado. Conheci ele a uns 10anos, apresentado pela Dano Bolona q veio buscar eu e um brother pra irmos pra falecida Stuttgart. Thuco é um cara super parcerão com a galera da noite. Não tem ruim.

  4. Eu andei apenas duas vezes com o Jesus, pois não sou de sair na noite! Mas, depois dessas duas corridas nos add no face e desde então, eu curto e acompanho o trabalho dele junto as musos e deusas! Parabéns Jesus tu merece todo o esse sucesso e carinho!

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