A economia que vem das flores

Setembro é uma época importante para o Rio Grande do Sul. É o mês que comemora-se a Revolução Farroupilha e onde talvez o tradicionalismo esteja mais aflorado. Os gaúchos querem mostrar as melhores coisas do Estado e todo esse orgulho traduz-se também na Expointer. A tradicional feira agropecuária, que teve sua 37ª edição esse ano, é a vitrine de animais, máquinas e produtos voltados ao setor. É no Parque Assis Brasil, em Esteio, próximo a Porto Alegre que o campo fica mais perto da cidade.

Por Bárbara Barros
Jornalismo Econômico / Manhã

Em meio aos diversos estandes e pavilhões, um deles chama atenção pelo conteúdo que traz no letreiro: Espaço da Flor Gaúcha. O setor teve sua primeira participação na Expointer no ano de 1997, mas para muitos ainda tem um ar de novidade.

 

Espaço da Flor Gaúcha na Expointer. Crédito: Bárbara Barros
Espaço da Flor Gaúcha na Expointer. Crédito: Bárbara Barros

 

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), no ano passado o consumo de flores per capita no Rio Grande do Sul somou R$ 36,9, ficando atrás apenas do Distrito Federal (R$ 43,7) e do estado de São Paulo (R$ 43,6). O estado do RS supera a média anual do país, que é de R$ 25,3 per capita, conforme o site da Associação Brasileira do Agronegócio de Flores e Plantas (Abafep). O Brasil ainda é principiante quando comparado aos países europeus, que consomem de R$ 161,00 à R$ 230,00 per capita. Apesar da falta de hábito da população, os expositores da feira provam que é possível fazer das flores um bom empreendimento.

As orquídeas estão entre as flores mais procuradas. Crédito: Bárbara Barros

 

Embaixo da lona branca as plantas são organizadas e etiquetadas. Os estantes, que parecem se misturar, podem ser identificados por banners pendurados nas paredes. As mercadorias estão expostas em mesas de madeira e em caixas dispostas chão. O local é timidamente pequeno se comparado aos outros. Ao todo são quatro bancas, que vendem produtos de mais de vinte famílias. As portas estão fechadas e do lado de fora, algumas pessoas circulam o local, perguntando umas as outras quando seria possível entrar. São 9 da manhã, quando o pavilhão abre e a pedra brita começa a tilintar pelo caminhar dos curiosos.

O espaço das bancas é bem aproveitado e os produtos são expostos no chão. Crédito: Bárbara Barros
O espaço das bancas é bem aproveitado e os produtos são expostos no chão. Crédito: Bárbara Barros

Se a demora para abertura do pavilhão deixou os compradores ansiosos, o produtor que faz das flores sua fonte de renda tem como principal virtude, e dificuldade, a paciência.

O tempo até a planta poder ser comercializada e dar retorno financeiro demora mais do que dois anos para as espécies pequenas. Daí a razão de geralmente começar por hobby: “Tem que saber levar, apreciar. É assim que a gente adquire conhecimento próprio, praticando mesmo, estando todo dia aí”, ensina Lucia Thomas uma das expositoras vindas de Caxias do Sul, na região da serra. Diferente da agricultura, onde tem-se a safra, no caso das plantas por serem produzidas em estufa é possível colher o ano todo, em diferentes períodos.

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A produtora Lucia Thomas cuida dos últimos detalhes da sua banca antes do pavilhão abrir. Crédito: Bárbara Barros

 

Já a produtora Gundela Horst dá continuidade ao negócio do pai. A empresa que leva o sobrenome da família é especializada na produção de cactus e está há mais de 53 anos no ramo. Chegou a ter sua produção exportada para Alemanha, Suíça e Holanda. Hoje o cactário de Imigrante (RS) tem cerca de 20 funcionários e a produção voltada apenas para o mercado nacional.

Os produtores são presença certa nas feiras e a visibilidade gerada torna-se uma motivação a mais. A prioridade é o consumidor final. Por isso, produtos como insumos, toldos, objetos de jardinagem, ou plantas maiores como palmeiras ficam de fora para dar lugar a produtos que sejam fáceis de carregar e tenham preço acessível.

Além da beleza, o preço mais baixo é um atrativo aos clientes. Crédito: Bárbara Barros
Além da beleza, o preço mais baixo é um atrativo aos clientes. Crédito: Bárbara Barros

 

Na Expointer deste ano os valores dos produtos a venda ficaram entre R$ 6,00 a R$890,00, este último um cactus de 22 anos. “Eu sempre olho e escolho alguma que eu não tenho. Daqui vai para minha sala ou para o meu jardim”, comenta a visitante Ilza Maria Pinto, de Porto Alegre, enquanto escolhia orquídeas. Nesse tipo de evento é possível encontrar valores 20% menores do que os das floriculturas, segundo José Laerte Correia da Silva, membro da diretoria da Associação Rio-Grandense de Floricultura (Aflori), que organiza o pavilhão.

O clima é de cooperação entre os produtores. Além do envolvimento da família, amigos e vizinhos são bem-vindos e ajudam quando é preciso. Quem não pode frenquentar os eventos, tem o produto exposto e depois o valor é repassado. “Todo mundo pode vender tudo, mas a gente se combina, pra todo mundo ganhar”, acentua Lucia, que para ilustrar o desempenho do setor diz que “os produtores não trabalham com plantas comestíveis para não dar prejuízo aos restaurantes”, brinca.

É geralmente na propriedade das famílias que a quantidade de vendas é maior. Quem compra por atacado ou é um cliente mais específico, como paisagistas, negocia diretamente. Isso dá aos produtores a possibilidade de um funcionamento mais flexível, podendo fechar em determinadas datas, como feriados e domingos, ao contrário das floriculturas.

 

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A comercialização das flores gaúchas é feita nas propriedades dos agricultores. Foto: Bárbara Barros

 

“Tem produtor que arrecada R$ 1 mil e outros R$ 100 mil por mês. Isso porque eles trabalham com diferentes tamanhos de estufa e há desde os que plantam por gosto e os que vivem exclusivamente disso”, exemplifica Laerte, que também é engenheiro agrônomo. O faturamento é fortemente influenciado por datas comemorativas, mas o fato é que em tempos de Expointer, o público também quer fechar negócio e fazer parte da economia gaúcha.

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